Curitiba é Arte: O movimento musical curitibano e Celso Piratta

Celso Loch, ou Celso Piratta, como é conhecido, está na música, no teatro e no cinema paranaenses

Por Irma Bicalho

Celso Loch nasceu em Curitiba em 23 de novembro de 1947. Filho de família de musicistas, tornou-se músico, instrumentista e compositor premiado. Toca violão, percussão, gaita de boca, contra-baixo e flauta. “Só isso”, limita ele, sempre bem humorado. O apelido “Celso Piratta”, recebeu do amigo médico e músico Alfreli Amaral, da banda Metralhas Beatles Again, nos anos 70. Fazia jus aos cabelos compridos, à barba e à bandana que costumava usar.

A música está no sangue e na história de Loch. O avô materno, Sizenando Ribeiro de Quadros,  era percussionista de uma banda mambembe de circo. Ao chegar em Ponta Grossa, apaixonou-se e casou-se com Balbina Branco Quadros, seguindo então a carreira de alfaiate.  Entre os filhos do casal estavam Yolanda, a mãe de Celso,  e a tia, Julieta, que formavam o duo Irmãs Quadros. Elas cantavam música sertaneja de raiz na Rádio PRJ2,  em Ponta Grossa. O tio Chicão era violeiro e o tio Frontino tocava violão e saxofone na Orquestra do Genésio, grupo musical famoso na cena curitibana até o início da década de 60.

A mãe e o avô foram grandes incentivadores da carreira musical de Celso. Ele lembra que, desde os cinco anos, o avô o levava de bonde para cantar na Rádio Guairacá, no centro de Curitiba. Era tão pequeno que precisava subir numa banqueta para alcançar o microfone.

Na infância, seus ídolos eram Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, Zé Pequeno e Luíz Gonzaga. Uma de suas grandes emoções foi cantar no palco ao lado de Nhô Berlamino, em um show realizado no Cine América, onde se reuniram os grandes nomes do rádio.

Chegou a ganhar da mãe um acordeon. Tentava aprender a tocar o instrumento sozinho, quando um dia um carro da Loja Prosdócimo parou na frente de sua casa e levou embora o instrumento. Os tempos eram difíceis naquela época. Sua mãe, que criava o filho sozinha e com certa dificuldade, não conseguiu pagar as prestações do carnê.

mãe de piratta
A mãe de Loch, Yolanda( à direita) e a tia Julieta eram “As Irmãs Quadros”, em 1941, na Rádio PRJ2, em Ponta Grossa.  Foto: acervo de família

Sem largar a música

Na adolescência, influenciado pelo rock, pediu ao tio que lhe ensinasse violão. Aos 13 anos, passou em um concurso para mensageiro da prefeitura de Curitiba. Passou a dividir o tempo entre os estudos, o trabalho e a música.

No trabalho, a carreira musical foi incentivada pelo chefe José Adolfo Barbosa. Também músico, permitia que Celso saísse quinze minutos antes do fim do expediente todas as quintas-feiras. O jovem deixava o escritório, onde hoje é o Paço da Liberdade, para percorrer cinco quadras às pressas, até chegar na esquina da Pedro Ivo com a Monsenhor Celso, onde cantava e tocava no programa de Paulo Hilário, na Rádio Tingui.

Mesmo gostando mais da MPB, montou uma banda de rock, a The Clapters, na qual tocava contrabaixo. Em 1965, trocou o nome da banda para “Os Carcarás” e gravou um vinil com seis músicas na Master Estúdio de Som.

Influenciado pelo padrasto, que sonhava em vê-lo juiz, cursou Direito, na Universidade Federal do Paraná. Chegou a fazer o curso para magistrado, mas a música tocou mais alto. Depois passou em um concurso para Procurador de Curitiba, o que não o impediu de continuar a carreira de músico, graças a sua disciplina. Mesmo tocando até tarde na noite, pela manhã tinha a responsabilidade do trabalho.

Teatro e Cinema

A certa altura da carreira, o teatro cruzou sua vida.  Nos idos de 70, Oracy Gemba e Emílio Pitta o levaram para o teatro. O envolvimento nasceu com a peça “Benção Vinícius”, na qual participou como violonista, tendo em vista sua intimidade com a MPB. A partir de 1978, começou a compor para o teatro, que o levou a ganhar oito prêmios Gralha Azul.

Depois foi a vez do cinema. Em parceria com João Luiz Fiani, participou do filme “Agora que são elas”, em 2000, baseado em texto de Paulo Leminski e com direção de Beto Carminatti. Em 2006, ganhou o Kikito de melhor música com o curta-metragem “A balada do Vampiro”, também dirigido por Carminatti e Estevan Silveira.

As parcerias com as artes continuam até hoje. No teatro, o trabalho mais recente foi a trilha da comédia musical “Boca Maldita”, de Fiani. Piratta tocou ao vivo durante os três meses em que o espetáculo ficou em cartaz no Teatro Lala Schneider.

No cinema, compôs a trilha do média-metragem “Arquitetos da Revolução”, documentário de Yanko Del Pino, lançado em 2019,  que conta como a capital paranaense ganhou o status de “primeiro mundo”, a partir das ideias inovadoras de um grupo de arquitetos consagrados, como Jaime Lerner, Manoel Coelho e Alfred Willer, entre outros.

No MAPA da música brasileira

Em 1975, Loch participou da criação do mais importante movimento musical de Curitiba, o MAPA – Movimento de Atuação Paiol. A ideia era valorizar os temas e artistas locais e colocar a capital paranaense no mapa da música popular brasileira. Para isso, promoviam encontros e eventos, entre eles a Mostra da Música Paranaense. Estavam envolvidos no projeto vários artistas, agitadores culturais e também representantes do poder público municipal.

O MAPA gravou um LP com a participação de Celso Loch, Paulo Vítola, Marinho Galera, José Roberto Oliva e Sergio Maluf em 1976. Com direção musical de Roberto Nascimento, foi patrocinado pela Fundação Cultural de Curitiba em parceria com o Ministério da Educação e Cultura. O LP tinha 20 faixas de 18 compositores paranaenses. Uma delas é Festa-Feira, a primeira gravação oficial de uma canção de Paulo Leminski em parceria com Celso Loch.

Novo projeto

Canções de Loch e Leminski é o mais novo trabalho de Celso Piratta. O CD tem onze composições, sendo sete inéditas, feitas em parceria com Leminski, com participação especial de Téo Ruiz, Estrela Leminski, Michelle Mabelle e da banda curitibana Blindagem.

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O projeto ainda tem um documentário sobre o MAPA, com depoimentos de Jaime Lerner, Paulo Vítola, João Gilberto Tatára, Sérgio Maluf, Marinho Gallera, Renato Lucce, Glaci Gottardelo e José Oliva. O documentário teve uma pré-estreia em fevereiro, no Cine Passeio, seguida de um bate-papo com Loch.

Estavam previstos ainda uma nova exibição do filme da Cinemateca, além de dois shows no Teatro Paiol. Infelizmente, os eventos foram cancelados devido à quarentena e devem ser remarcados em breve, no novo normal, que todos aguardam com ansiedade.

O Piratta não para. Ainda no forno tem um novo álbum, apenas com sambas de breque, que ele ainda não decidiu se vai virar um CD ou se as composições vão direto para canais de streaming. Aguardem.

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