Mulheres Paranaenses: Doutora Elisa Checchia Noronha, “a cegonha de milhares de bebês”

Idealizadora do Hospital e Maternidade Santa Brígida, Dra. Elisa Checchia deixou um legado importante na história da obstetrícia do Paraná

Por Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira
Para a edição de final de ano da coluna “Mulheres Paranaenses”, escolhemos uma mulher que vibrava com a vida e sentia em cada recém-nascido esperança e infinitas possibilidades. Com uma legião de admiradores, a Dra. Elisa Checchia, para a qual a Medicina era uma missão, trouxe ao mundo milhares de bebês e acompanhou mulheres e mães no cuidado com a saúde.
Elisa Checchia nasceu em 1910, em Curitiba, filha de Mauro Checchia e de Brígida Somma Checchia, descendentes de italianos. Em 1930, com estímulo dos pais, ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná, tendo sido aprovada em segundo lugar, dentre os 44 ingressantes. Embora fossem apenas duas alunas mulheres na turma, ambas foram muito bem recebidas pelos colegas. No entanto, percebia-se uma certa resistência por parte dos professores, que queriam contar coisas engraçadas e achavam que a presença delas atrapalhava (WILLE, 2017). Nesse período, Elisa dava aulas de Matemática, sua primeira especialidade.
Curitiba, nos anos 30 e seguintes, era conhecida como Cidade Universitária, haja vista a excelência dos estudos ofertados na Universidade Federal do Paraná. Vinham para cá muitos estudantes de estados vizinhos, sobretudo de São Paulo, e foi assim que Elisa conheceu seu futuro marido, Leônidas, também médico. Disse ela, em entrevista a José Wille, em 1997: “A maioria dos estudantes daquele tempo era paulista, inclusive o meu marido. Ele veio estudar aqui e casamos. […] A universidade tinha fama de boa escola” (WILLE, 2017, p. 6).
Formou-se em 1935, ano em que foi para São Paulo fazer um curso de especialização na maternidade do professor Raul Briquet . Retornando a Curitiba, montou seu consultório, com uma clínica que prosperou.
Casados, Elisa e Leônidas, em 1939 foram viver em Rolândia, no interior do Paraná. A essa época, Rolândia estava apenas começando, era uma “cidade alemã” e passava por uma epidemia de tifo. Juntos, ela e o marido, trabalharam com pesquisa e informações à população sobre como prevenir a doença, no que foram bem sucedidos. Como Elisa falava alemão, isso facilitou sua adaptação na nova cidade. Ela foi uma das primeiras médicas a atuar no interior do estado, atendendo Rolândia e, ainda, Cambé, Apucarana e Arapongas.
Em 1954, o casal de médicos retornou a Curitiba, considerando a necessidade de dar uma melhor educação às filhas, Brígida e Maria Aparecida, a Cida. Agostinho, terceiro filho, nasceu em Curitiba. Drª Elisa contou a Wille (2017) que, mesmo tendo ficado afastada de Curitiba por quinze anos, no retorno, foi procurada por sua clientela. E a partir daí, ela se concentrou na realização de seu grande sonho: construir um hospital maternidade que realizasse partos mais humanizados.
Antes que esse sonho se concretizasse, porém, ela organizou um curso denominado “Parto sem medo”, com o objetivo de tranquilizar as mulheres e o casal com relação à gestação, ao parto, ao pós-parto e aos cuidados com o bebê, curso esse que era frequentado por casais e com aulas ministradas por ela. Maridos e mulheres assistiam ao curso juntos, de mãos dadas. A ideia não era a de um “parto sem dor” que, segundo ela, não existe, mas sim de, em cinco aulas, uma a cada semana, preparar o casal para o parto sem medo, destacando a paternidade responsável e o papel do marido no parto. Drª Elisa adorava dar aulas e o fez até os 88 anos de idade. Atualmente, esse trabalho continua, por meio do CEMUC – Centro de Apoio a Mulheres e ao Casal Grávido, que oferta cursos gratuitos a casais.
Dentre outras contribuições da Drª Elisa, vale a pena destacar a introdução, no Paraná, do método contraceptivo intrauterino (DIU).
Em 1971, foi eleita presidente da Associação Brasileira de Mulheres Médicas (ABMM); em 1972, representou o Brasil no Congresso Internacional em Paris; e em 1973, organizou uma jornada médica em Curitiba. Na oportunidade de sua eleição como presidente da ABMM, Bragança, em sua coluna “Mulher presente”, mencionava:

Apesar de sua intensa atividade como médica, ela ainda encontra tempo para
cuidar das rosas do seu jardim e administrar a construção do hospital que sempre foi o seu grande sonho. Nos seus momentos de saudade, ela lembra com carinho o admirador do seu trabalho, Leônidas Noronha, seu marido falecido, que também era médico (BRAGANÇA, 1971, 3º cad., p. 4).

Foi em 17 de abril de 1973, aos 63 anos de idade que, com a participação de nove sócios, Drª Elisa consolidou sua aspiração maior: o Hospital e Maternidade Santa Brígida foi inaugurado, tendo por objetivo oferecer um tratamento humanizado e com competência técnica para a mulher e o recém-nascido. O nome, Brígida, segundo conta o Dr. Abelardo Elias da Silva, sócio fundador do Hospital e médico ginecologia e obstetra, foi dado em homenagem à mãe da Drª Elisa, Dona Brígida Somma Checchia (BEM PARANÁ, 2018).
Brígida, além de nomear a mãe e uma das filhas da Drª Elisa, nos remete, também, a uma nobre sueca que viveu no século XIV e, após ficar viúva, com oito filhos, dedicou-se inteiramente ao serviço dos mais necessitados, cuidando dos enfermos, em um hospital fundado por ela e seu esposo Wulfon, príncipe de Nerícia (SANTO DO DIA, 2020). Mais tarde, foi santificada pela Igreja Católica como Santa Brígida.
De acordo com levantamento promovido pelo jornal Plural, com base nas declarações de nascidos vivos emitidas em Curitiba entre os anos de 2014 e 2017, foi no Hospital e Maternidade Santa Brígida que mais nasceram crianças na capital paranaense. Em três anos, foram 20,9 mil bebês. Segundo Luc (2020), atualmente, o hospital realiza cerca de 3,4 mil atendimentos por mês. Embora a maioria dos partos seja por cesárea, Drª Elisa era defensora do parto natural, considerando que “a mulher tem um sistema genital, que é para dar passagem para o nenê. […] Se não pode, vamos para a cesariana. Mas a preferência é pelo parto natural” (WILLE, 2017, p. 15).
No Hospital Santa Brígida nasceu o primeiro bebê de proveta do Paraná. E, em 2017, um bebê prematuro, que nasceu com apenas 460 gramas, conseguiu se recuperar (BEM PARANÁ, 2018).
Drª Elisa Checchia deixou um legado importante na história da obstetrícia do Paraná. Sua competência, seu trabalho em favor de mães e bebês, na busca de um parto mais humanizado, geraram frutos inequívocos e contribuíram para uma visão diferenciada desse processo fundamental na vida das pessoas. Faleceu em Curitiba aos 89 anos, no dia 02 de fevereiro de 2000.
Nossos agradecimentos à Srª Maria Isabel Christina Reginato Checchia Kloss, pela autorização do uso da foto de sua tia, Drª Elisa.
Referências


Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

4 COMENTÁRIOS

  1. No Hosp. Santa Brigida nasceram meus 4 filhos pelas mãos da abençoada Dra. Elisa. Minha neta também nasceu lá.
    Para complementar sobre a Dra. Elisa: nos finais de semana ela visitava/atendia idosos
    acamados, gratuitamente.

  2. Meus dois filhos, Gabriel e Alexandre, nasceram no Hospital Santa Brígida, através de parto natural. Somos gratos à Dra. Elisa pela orientação, atendimento e carinho. Eliel e Karin.

  3. Meus dois filhos Fernanda e Luiz Sergio nasceram no Santa Brigida,pelas mãos deste ANJO que se chama DRA.ELISA,eu e meu marido amamos ela muito. Gratidão????

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