Mulheres Paranaenses: Aimara Riva de Almeida, o amor aos livros e ao trabalho em bibliotecas

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar!

(CASTRO ALVES, 1870)

Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira
Aimara Riva de Almeida nasceu em 6 de março de 1949, em Curitiba, na Maternidade Victor Ferreira do Amaral. Sua família morava na rua Coronel Dulcídio, esquina com a rua Carlos de Carvalho, próximo à atual Praça Espanha. Seus pais, Mauro Pereira de Almeida e Laurinha Riva de Almeida, casaram-se em 1942 e foram viver em São Paulo. Para acompanhar o marido, Laurinha, que era professora concursada do Estado do Paraná, solicitou desligamento da carreira.
Seu pai, Mauro Pereira de Almeida, era formado em Química Industrial e em Engenharia Química, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), trabalhou no Laboratório Paulista de Biologia e nas Indústrias Matarazzo, em São Paulo. Em Curitiba, exerceu suas atividades no Instituto de Biologia e Pesquisas Tecnológicas, atual TECPAR. Foi professor de Química Orgânica no Colégio Estadual do Paraná e professor catedrático na UFPR, nos cursos de Engenharia Química e de Farmácia e Bioquímica.
Dessa união, nasceram quatro filhos: Roberto e Rui (falecido), que nasceram em São Paulo, e Aimara e Mariza, nascidas em Curitiba. Em 1948, a família retornou a Curitiba. Aimara conta que o avô paterno tinha descendência prussiana, enquanto a avó era uma carioca da gema, com ascendência portuguesa. A convivência em família sempre foi permeada por carinho e amizade. Todos gostavam de cantar e tocar violão, o que tornava os encontros alegres e amorosos sendo que até hoje os primos mantêm esta atmosfera quando se reúnem.
Do lado materno, o bisavô, Pietro Riva, veio de Brescia, na Itália, com seus filhos José e Próspero, estabelecendo-se em Curitiba. Em 1890, porém, partiu para Palmeira, município próximo a Curitiba, onde, com outros italianos, fundaram a Colônia Cecília1 que, durante quatro anos, foi uma experiência de anarquismo no Brasil. Ali, ministrava aulas para os moradores.
Em 1911, Pietro Riva, após uma viagem à Itália, trouxe no seu retorno mais dois filhos, Pierino, o filho mais novo, e Giulio, avô de Aimara, que veio acompanhado da esposa Thereza Comini e das filhas Maria e Emma. Fixando residência em Curitiba, tiveram mais 3 filhos homens e 5 mulheres, totalizando 10 filhos. Nesse mesmo ano, apenas 4 meses depois da chegada ao Brasil, nasceu Laurinha Riva, em Curitiba, mãe de Aimara. Das filhas de Giulio e Thereza, apenas uma não abraçou o magistério. Já os irmãos deram continuidade à Metalúrgica Riva, fundada pelo patriarca.
Aimara menciona que teve uma infância feliz, sentindo-se muito amada e paparicada. “Nossa casa sempre foi alegre e cheia de gente”, explica. Com o nascimento da irmã Mariza, em 1956, Aimara passava muito tempo na casa da avó, que morava na Rua Francisco Torres, e, mais tarde, mudou-se para a rua XV de Novembro, perto do Teatro Guaíra, o que lhe permitia assistir a todos os espetáculos em cartaz no Pequeno Auditório, então concluído2. Participava das apresentações culturais do Centro Cultural Dante Alighieri, em companhia das tias, e era frequentadora assídua da Biblioteca Pública do Paraná. Além da sala de leitura, participava das horas de contos, como também dos jogos e atividades artísticas oferecidas como desenho, pintura, modelagem. Nas manhãs de domingo, o pai a levava à Biblioteca Pública do Paraná, onde assistia a apresentações culturais, peças teatrais e musicais. Como o pai, a mãe e as tias eram dedicadas à pesquisa, Aimara conta que nunca ficou sem resposta às perguntas que fazia ou deixou de ser levada a pesquisar nas fontes físicas disponíveis à época.
Ao iniciar o curso primário, no Grupo Escolar Conselheiro Zacarias, já estava alfabetizada, pois sua mãe havia se incumbido dessa tarefa. Cursou o ginasial no Colégio São José e o curso normal no Colégio Nossa Senhora de Sion. Conta que, certa vez, durante o curso normal, houve uma palestra no Colégio Sion, com a professora Vera Lacombe Miraglia, da Escola Anjo da Guarda. Ficou encantada com o método apresentado e com o lema da escola, que é “Eu sou alguém, eu respeito os outros e quero que os outros me respeitem”, iniciando, em seguida, estágio no Anjo da Guarda. Em pouco tempo, era professora da turma de educação infantil.
Na escolha de sua formação universitária, Aimara menciona que foi influenciada por sua família, sobretudo por seu pai, que era pesquisador. Logo percebeu a importância do gerenciamento da informação e que a informatização, que estava chegando ao país, levaria a uma explosão nesse campo. Sabia que seria feliz em uma biblioteca… Assim, optou pelo curso de Biblioteconomia e Documentação, da UFPR, que concluiu em 1969.
Em dezembro de 1974, nasceu sua filha, Cynthia Maria de Almeida Pierri, atualmente Promotora de Justiça do Estado do Paraná, casada com Tiago Cristiano Czarnecki e que deu a Aimara dois netos, João e Mateus, com os quais ela “vive intensamente a arte de ser avó” (ALMEIDA, 2021).
Em março de 1975, após um convívio tumultuado, Aimara voltou a morar com os pais. Na época, o divórcio não era regulamentado – a Lei do divórcio é de 1977- , e poucas mulheres tinham determinação para tomar essa decisão, sobretudo em face do preconceito existente. Para ela, foi um tempo de muitas lutas, mas também de muitas conquistas, de realização de escolhas que lhe permitiram ser profissional e mãe presente na vida de sua filha, “joia rara, preciosa e sem par” (ALMEIDA, 2021).
Ainda trabalhando no Anjo da Guarda, em 1976 foi convidada para um trabalho temporário na Biblioteca Central da UFPR, na Sessão de Aquisição e Preparo Técnico do material bibliográfico, que atendia a todas as bibliotecas do sistema. Mais tarde, acabou desligando-se do Colégio Anjo da Guarda, para dedicar-se integralmente ao novo desafio.
Na continuidade, passou a trabalhar na Biblioteca do Centro Cultural Brasil Estados Unidos, que possuía um grande acervo, constituído por periódicos, livros didáticos para professores, livros infantis e juvenis, de referência e muita Literatura Americana e Inglesa.
Em 1978, quando da realização do Primeiro Simpósio Nacional de Ecologia, em Curitiba, no Teatro Guaíra, assistiu à apresentação de Jacques Cousteau, palestrante do evento, e se encantou com o tema, enveredando na área ambiental. Cumpria-se “a premissa de que o importante é estar no lugar certo, na hora certa” (ALMEIDA, 2021).
A partir daí, a área ambiental assume relevância na vida de Aimara. Por meio da Fundação de Pesquisas Florestais – FUPEF, em convênio com a Agência de Cooperação Técnica Alemã – GTZ, compilou, reuniu e confeccionou os resumos de 1.120 trabalhos sobre o Gênero Araucaria, resultando na publicação Bibliography of the Genus Araucaria, v. 1, lançada durante o Congresso International da Union for Forestry Research Organization – IUFRO. Quando da inauguração do novo prédio da Biblioteca do Setor de Ciências Agrárias da UFPR, juntamente com a bibliotecária Léa Belczak, participou do planejamento, da organização e da implantação exitosa da junção das bibliotecas de Agronomia, Medicina Veterinária e Florestas da UFPR.
Em 1982, iniciou sua atuação no Instituto de Terras e Cartografia (ITC), órgão sucessor dos que foram atuantes na questão de terras no estado do Paraná. Trabalhou com os acervos da Inspetoria de Terras e Colonização (1923), do Departamento de Geografia, Terras e Colonização – DGTC (1942), da Fundação Paranaense de Colonização e Imigração FPCI (1947) e da Fundação Instituto de Terras e Cartografia –ITC (1972), que estavam encaixotados. Aimara conta: “Vesti-me de coragem e aceitei o desafio. Já era apaixonada pela História do Paraná e ali encontrei um acervo raro que precisava ser restaurado e organizado. Ressurgiu então a Biblioteca do Instituto de Terras e Cartografia” (ALMEIDA, 2021). Na continuidade, encontrou, dispersos, uma diversidade enorme de documentos, a maioria em péssimo estado de conservação, importantes para a História do Paraná. Iniciou, então, a organização do arquivo da instituição. Muitos dos documentos históricos foram recebidos pelo Arquivo Público do Paraná e outros, da História Agrária e Fundiária do Estado, encontram-se disponíveis na Sessão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná.
Outro trabalho relevante desempenhado por Aimara, no ITC, foi participar como membro da equipe técnica do planejamento, pesquisa, elaboração e redação final do “Atlas Geral do Estado do Paraná”. Executou levantamento de todas as propriedades rurais do Estado, calculando o percentual de 25 por cento das áreas de preservação permanente, conforme determinado no Código Florestal. Membro do corpo editorial institucional atuou na padronização e normalização de suas publicações, com destaque para a Revista de Direito Agrário e Ambiental e a compilação da Coletânea de Legislação Ambiental, publicada em Convênio com a Agência de Cooperação Técnica Alemã – GTZ. Aimara foi membro atuante do Grupo de Bibliotecários em Documentação Agrícola – GBIDA e Presidente da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes – CIPA, quando implantou Programa de Prevenção e Combate ao Uso de Drogas, totalmente exitoso e que contemplou grande número de beneficiários. É extensa a lista de consultorias e atividades de classe das quais participou.
Em 1983, trabalhando, Aimara conheceu Clóvis Edilberto d´Assumpção, geógrafo e analista ambiental, com quem viria a casar em segundas núpcias. Clóvis foi autor do “Vocabulário Agrário” e desenvolvia pesquisas na questão ambiental e fundiária. Em 1998, descobriu-se que ele era portador de Esclerose Lateral Amiotrófica – ELA. Comenta Aimara (2021): “Perdi meu Clóvis para ELA, enfermidade terrível[…]”. E acrescenta, emocionada, que “Enquanto estivemos juntos, vivemos o amor em sua plenitude, como penso deve ser sempre o amor entre um homem e uma mulher” (ALMEIDA, 2021).
Atualmente, com uma vida ativa e repleta de amigos, Aimara realiza atividades de voluntariado na proteção de crianças, meninas e mulheres. Diz ela: “Fazem parte da minha vida pessoas a quem pude ajudar e muitas que estenderam a mão para eu poder continuar. As que ficaram pelos longos caminhos da vida, ficaram. E eu vou vivendo, não posso parar” (ALMEIDA, 2021).
A respeito da Colônia Cecília, explica Veiga (2020, p.1): “O idealizador [Giovanni Rossi] era um intelectual com formação na área agrícola, que havia escrito um livro sobre uma experiência fictícia do anarquismo. Ele escolheu um grupo de jovens e resolveram testar as ideias na prática social. Não vieram para fazer a revolução.”
2 A construção do prédio atual do Teatro Guaíra foi iniciada em 1952 e concluída em 1974, segundo o projeto de Rubens Meister, um dos precursores da arquitetura moderna no Paraná (PARANÁ, 2021).

Referências

  • ALMEIDA, Aimara Riva de. Entrevista concedida às autoras em 15 e 17 de janeiro de 2021.
  • PARANÁ. Centro Cultural Teatro Guaíra. Histórico. Disponível em: http://www.teatroguaira.pr.gov.br/Pagina/Historico. Acesso em: 18 jan. 2021.
  • VEIGA, Edison. Entre amor livre e fome, a vida na colônia Cecília, uma malsucedida experiência anarquista do Brasil. BBC News Brasil. 14 jun. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-52973847. Acesso em: 18 jan. 2021.

Nossos agradecimentos à Aimara Riva de Almeida, pela entrevista concedida e pela autorização para uso da foto.
 

Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

 
 
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