Jornalista conta a história da Guerra do Contestado em documentário

Nascido na região do conflito, Dirk Lopes dedicou seu tempo para não deixar a história da maior guerra do século XX no Brasil ficar esquecida

Por Carlos Bório

Você sabia que o Paraná já foi palco de uma das maiores guerras do século XX no Brasil? Pois é, pouca gente conhece a história da Guerra do Contestado, conflito armado que envolveu posseiros e pequenos proprietários de terra de um lado e representantes dos poderes estadual e federal brasileiro do outro, entre eles o próprio Exército Brasileiro e forças da Polícia Militar do Paraná e de Santa Catarina. Para manter a história viva, o jornalista Dirk Lopes produziu o webdocumentário “Órfãos do Contestado”, que está disponível aqui gratuitamente no YouTube.

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Na entrevista para o Curitiba de Graça, o jornalista fala sobre como foi a produção do webdocumentário, que tem o objetivo é revelar a violência dessa guerra de brasileiros contra brasileiros e os seus reais motivos, um barril de pólvora que deixou 8 a 10 mil mortos e foi o maior conflito do Brasil no Século XX.

De onde surgiu a ideia de fazer um documentário sobre a Guerra do Contestado?

A motivação era um desejo antigo, desde a adolescência e foi um resgate às raízes. Nasci em Xaxim, oeste de Santa Catarina, numa região que fez parte do território “Contestado” pelos estados do Paraná e Santa Catarina no STF e pertencia ao Paraná durante a conflagração. As divisas atuais dos estados foram acordadas em 20/10/1916 entre os estados no Palácio do Catete no Rio de Janeiro, após o conflito.

Durante décadas a Guerra do Contestado (1912-1916) foi esquecida pela história oficial e durante o Regime Militar de 1964 a 1985 era contada nas escolas públicas em não mais que meia página de uma apostila. A razão apontada era o conflito de limites de terras entre os Estados do Paraná e Santa Catarina, fato que realmente acontecia em paralelo na região “contestada” pelos dois estados, mas não foi o motivo da conflagração.

O objetivo geral é revelar aos estudantes de nossos estados vizinhos a violência da Guerra de brasileiros contra brasileiros, a opressão do Estado e os reais motivos da conflagração, um barril de pólvora que deixou 8 a 10 mil mortos e foi o maior conflito do Brasil no Século XX.

Qual a importância do documentário para a história do Paraná?

O Paraná não fala muito na Guerra do Contestado porque não houve vencedores nem derrotados. Todos perderam. O Paraná perdeu a maior parte do território “contestado” e milhares de brasileiros morreram durante quatro anos. Mas há heróis que personagens que precisam ser lembrados, pois de cada lado estavam defendendo uma causa, ou ordens. O Coronel João Gualberto, morto na Batalha do Irani em 22/10/1912, é o patrono da Polícia Militar do Paraná. O Capitão Ricardo Kirk, morto em 01/03/1915 em General Carneiro é o patrono da Aviação Militar do Exército Brasileiro. O Paraná lembra com toda justiça de General Carneiro e outros heróis do Cerco da Lapa durante a Revolução Federalista de 1894 e do Barão do Serro Azul, que poupou Curitiba de um massacre dos gaúchos comandados por Gumercindo Saraiva, mas precisa saber muito mais sobre a Guerra do Contestado.

O webdocumentário “Órfãos do Contestado” revela a história sangrenta e cruel da Guerra do Contestado, entre 1912 e 1916, numa extensa região de Santa Catarina até a divisa com o Paraná. Nele você verá as razões econômicas, políticas, sociais, religiosas e a luta pela terra na grande região conflagrada. O conflito envolveu o Exército Brasileiro, Polícias Militares do Paraná e de Santa Catarina, multinacionais que construíram a estrada de ferro e colonizaram a região com imigrantes italianos e alemães. O movimento de resistência juntou cerca de oito mil ex-funcionários da estrada de ferro demitidos após a conclusão da obra e milhares de moradores locais, a maioria caboclos jagunços, espoliados de suas terras por capangas das multinacionais. Envolveu também fazendeiros, latifundiários e vaqueanos, contratados pelo Exército para combater os revoltosos.

O movimento surgiu quando o Monge José Maria reuniu seguidores em Taquaruçu, então município de Curitibanos, hoje Fraiburgo. Mesmo após sua morte no Irani, o movimento messiânico aumentou com a liderança das virgens Maria Rosa, Teodora e Francisca Roberta, a “Chica Pelega”, Alemãozinho, Bonifácio Papudo, Chiquinho Alonso, Adeodato Manuel Ramos e tantos outros que formaram dezenas de redutos. Armados, os caboclos enfrentaram o Estado por quatro anos, numa revolta muito maior que Canudos, anos antes, em 1897.

Meu objetivo específico foi gravar depoimentos com historiadores, escritores, pesquisadores, produtores culturais, associações, diretores de museus, sobreviventes, filhos e netos de ex-combatentes e testemunhas de fatos históricos para demonstrar como são maltratadas as questões agrária, religiosa, política, social e econômica, mazelas que o Brasil enfrentou e enfrenta até hoje, mesmo em estados considerados ricos como Paraná e Santa Catarina.

foto mostra a igreja onde o profeta João Maria atuava
Profeta João Maria foi um dos principais nomes da resistência. Foto: Dirk Lopes

Quanto tempo levou para produzir o documentário?

Foram 15 anos de pesquisas e leitura de dezenas de livros. Eu penso que eu fiz este webdocumentário durante os 47 anos da minha vida, com as histórias que ouvia do meu pai e pessoas mais idosas na região aonde eu morava, no oeste de Santa Catarina. Sempre quis escrever um livro, fazer reportagens, séries, documentário, até um filme sobre este triste episódio de nossa história. Conheci em 2005 o Vicente Telles, neto de ex-combatentes, que era amigo de meu pai e passou a ser meu amigo. Ele morava no Irani e era um dos poucos que lutava para preservar a memória, ensinando crianças de escolas. Com a morte dele em 2017, resolvi arregaçar as mangas e planejar de fato.

Em 2019 ingressei na Pós-Graduação de Narrativas Audiovisuais e Novas Mídias do Centro Universitário UniBrasil. Não teve a menor dúvida sobre qual seria o tema do meu TCC, que é o webdocumentário “Órfãos do Contestado”. A produção foi realizada em dezembro de 2019, com os contatos prévios. O webdoc foi produzido com recursos próprios e gravado com Iphone e microfones de lapela Boya, câmera Go Pro e IGimball.

As gravações no interior do Paraná e Santa Catarina foram realizadas entre 6 e 13 de janeiro de 2020. Foram 1.400 km de estrada a partir de Curitiba, num roteiro que incluiu União da Vitória e General Carneiro (PR), Porto União, Irani, Água Doce, Salto Veloso, Caçador, Lebon Régis, Santa Cecília, Timbó Grande e Papanduva (SC) com gravações em igrejas, locais de acampamentos, sítios arqueológicos e redutos dos caboclos seguidores do Monge José Maria, chamados “quadro santos”, palcos de batalhas com milhares de mortos e museus históricos que preservam armas, munição e documentos da Guerra do Contestado e da Ferrovia São Paulo-Rio Grande. E depois outra viagem ao Rio de Janeiro entre 15 e 21 de janeiro para gravações no Palácio do Catete, Forte de Copacabana e CPDOC – Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da FGV – Fundação Getúlio Vargas. E na volta à Curitiba, entre 23 e 30 de janeiro, mais gravações na Biblioteca Pública do Paraná e Museu da Estação Ferroviária. Escrevi o roteiro de fevereiro a julho, fiz a edição em agosto e a publicação em 7 de setembro de 2020.

O que deu mais trabalho na produção?

Todas as etapas deram muito trabalho e precisaram de muita paciência. Foram nove meses ao todo. A pesquisa e a produção fiz sozinho. As gravações também, praticamente. Tive ajuda da minha irmã Elisa nas gravações no Irani, que fica a 66 km de Xanxerê, onde ela mora. A vantagem é que encontrei outras pessoas abnegadas e apaixonadas pelo tema em todos os municípios por onde passei. Em um mês de gravações, foram 860 clipes no Iphone mais 40 clipes na câmera GoPro rodando em estradas.

O roteiro foi escrito, impresso e reescrito pelo menos seis vezes antes de ser gravado. Aí tive uma ajuda preciosa da editora de imagens Steffani Daudt, que executou toda a edição do webdoc de 22’30” junto comigo e ainda produziu a vinheta, caracteres, trilha sonora e ficha técnica de uma maneira primorosa, com muita paciência para aturar as chatices deste autor aqui. A edição durou três semanas e a cada revisão, havia algo a ser cortado ou alterado. Além disso, também fizemos um “teaser” de 3 minutos pra TV e um “trailer” sonorizado de 3’53”. Indico ela para qualquer trabalho em TV ou audiovisual.

Expedi 30 documentos para autorização do uso de imagem, entrevistas, fotos e músicas. Alguns demoraram sete meses para chegar. Apenas para usar um vídeo da música “Chica Pelega” com dança de facão pedi autorização escrita para o cantor gaúcho Elton Saldanha, para a coreógrafa Rosângela Matte da Silva Kojinski, de Timbó Grande, para o jornalista Arthur Peixer, que fez as imagens e para Vicente Heleodoro de Paula Telles, filho do autor da música, Vicente Telles, já falecido.

O que você tirou de lição ao produzir o documentário?

A paciência. Na vida corrida e atribulada de um jornalista, com dezenas de pautas a fechar, agendar e inúmeros prazos a cumprir, o “fast-food” é inevitável. E isso reflete na vida pessoal, com ansiedade e superficialidade. Para fazer o melhor possível em qualquer trabalho, mas ainda mais num trabalho grande como é um webdoc, temos que caprichar nos detalhes.

Na fase de gravações, passei quatro horas numa estradinha de chão em General Carneiro procurando pessoas com mais idade que poderiam saber de relatos da queda do avião de Ricardo Kirk por seus pais ou avós. Encontrei o aposentado Pedro Maguelniski Sobrinho, de 92 anos, às 18h00 e ele já estava dormindo. Seus familiares foram o acordar e ele veio bem falante. Para localizar a Maria Simão, a “Mariazinha”, tive dicas do professor Nilson Fraga, geógrafo da UEL, que morou 10 anos na região do Contestado e pesquisa o tema há 20 anos. Em Caçador, o diretor do Museu do Contestado, Julio Corrente, passou o contato de uma ex-estagiária, a historiadora Flávia Raphaela, que hoje mora em Curitiba. Ela passou o contato de sua irmã Rhubia, que mora em Santa Cecília. Resolvi me hospedar na cidade, sem saber se encontraria Mariazinha. Rhubia enviou a localização de Mariazinha às 7h10 da manhã, quando eu tomava café no hotel. Saí correndo para o local antes que expirasse a localização do “Google Maps”. Entrei numa rua procurando pela senhora idosa do cajado que mora com o filho que anda de bicicleta. Daí soube que era na rua dos fundos, fui até um armazém, quando disseram que ela morava numa casa de fundos de outra casa alaranjada.

Chegando lá às 8h00, a vizinha me levou até Mariazinha, que não ouve muito bem. Até que ela disse que “não daria entrevista”. Falei que rodei 300 km para encontrá-la. Ela abriu um sorriso e disse pra esperar a volta do filho, o que demorou uma hora e meia. Conversou muito e quando o filho veio, foi uma entrevista emocionante. Fiquei 3 horas na casa dela. É preciso ter muita paciência e sensibilidade para entrevistar pessoas idosas.

foto mostra uma sepultura da época
Aqui é aonde está enterrado o Monge José Maria, morto na Batalha do Irani em 22/10/1912. Foto: Dirk Lopes

Pegou gosto? Vem mais documentários pela frente?

Depende do que acontecer com este trabalho e da sua divulgação, repercussão e principalmente retorno, que até agora foi zero. Vou revelar pela primeira vez aqui que gastei R$ 11 mil para comprar o Iphone com o qual fiz as gravações, microfones de lapela e peguei a estrada durante as minhas férias, fui para o interior do Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, fiz dívidas pessoais, botei meu carro à venda. Inscrevi o webdocumentário na categoria “Curta Metragem” no 30º Cine Ceará – Festival Iberoamericano de Cinema, de 28/11/2020 a 04/12/2020, e aguardo a avaliação para saber se será ou não selecionado. Apenas o curta vencedor do festival é que ganhará um prêmio de R$ 15 mil.

A Band Paraná exibiu o trailer no telejornal “Acontece Paraná” às 6h30 do dia 10 e a Rede CNT exibiu o audiovisual em 5 capítulos no CNT Jornal dos dias 8 a 14, às 22h para todo o Brasil. Publiquei o conteúdo gratuitamente no meu canal do YouTube, criado no feriado de 07/07/2020 e tive 170 inscritos e 1.500 visualizações em sete dias. Mas a vida de “youtuber” e “audiovisueiro” não é fácil. Preciso de 1.000 inscritos no canal e mais de 4.000 horas de visualizações pra começar a ganhar alguma coisa do YouTube.

Sem recursos e sem apoio, não há como fazer cultura, audiovisual, história, nada. Por isso, peço a todos que gostaram e querem ver outros trabalhos para inscrever no meu canal e acompanhar tudo gratuitamente.

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