Publicado em 29 de junho de 2020

Por cinco décadas, Maria Polenta foi a “curadora de ossos” da população pobre e rica de Curitiba

maria polenta

Maria Trevisan Tortato, a Maria Polenta. Foto: Reprodução/ Facebook Família Tortato

Por Camile Triska

Quem nasceu e cresceu em Curitiba, provavelmente, ouve histórias dos personagens da cidade desde os primeiros anos de vida. Quando começamos a série Gente Leite Quente, logo veio uma delas na minha cabeça: a Maria Polenta, a primeira figura curitibana que soube da existência.

Durante a minha infância, na década de 80, sempre ia com meus pais no Cemitério do Água Verde no Dia de Finados. Minha mãe sempre acendia uma vela no túmulo da Maria Polenta e eu perguntava o porquê, quem era aquela mulher. Será que fazia a melhor polenta da cidade? Embora fosse italiana, não era isso! Ela tinha sido uma benzedeira famosa muitos anos antes do meu nascimento, que atraia muitas pessoas para sua casa, naquele mesmo bairro.

Assim descobri sobre a história dessa mulher, que além de ficar conhecida como “curadora de ossos”, também é considerada milagreira por muitas pessoas até hoje.

Maria Trevisan era italiana, nasceu na região de Vêneto, em 1880. Aos 12 anos, imigrou com seus pais para o Brasil e passou a morar na Colônia Dantas, onde hoje fica o bairro Água Verde.

O apelido veio de seu irmão mais novo, Antonio, que era funcionário da Todeschini – fábrica de massas. Ficou conhecido por cozinhar muito bem polenta e passou a ser chamado de Antonio Polenta, apelido que acabou se estendendo a toda a família.

Em 1898, Maria casou com Giuseppe Tortato, um pedreiro de elite da época, responsável por construções de igrejas, com quem teve dez filhos. Foram morar na Rua Alferes Ângelo Sampaio, entre a Avenida Sete de Setembro e a Avenida Silva Jardim.

Hoje, não muito longe de onde era sua casa, no encontro da Rua Carneiro Lobo com a Avenida República Argentina, existe a Praça Maria Polenta (por onde passei muitas vezes quando morei naquela região). Ela também foi homenageada com um nome de rua: a Maria Trevisan Tortato, no bairro Novo Mundo, que tem esquina com a rua que leva o nome da santa popular curitibana Maria Bueno, sobre a qual já foi falado AQUI.

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Busto de Maria Polenta na Praça que leva o seu nome, no bairro Água Verde. Foto: José Maria Petroski/Reprodução Blog Familia Petroski

Foi ali, em sua residência, que Maria Polenta ficou famosa pela sua bondade, benzimentos e dom da cura. Segundo relatos, os atendimentos começaram depois de um sonho, onde seu avô revelou que no dia seguinte ela encontraria uma criança com uma fratura e que deveria curá-la. Maria contava que o fato realmente ocorreu e a criança melhorou.

Maria Polenta ainda teria aprendido mais sobre os processos de cura com outra benzedeira, chamada Maria Moreira, e com Modesto Emiliano, que ensinou ela a tratar traumatismos musculares e ósseos.

Em uma época que os tratamentos médicos eram mais difíceis e escassos, seus atendimentos tinham tanto êxito que logo ficou famosa não somente entre a população mais pobre, sem acesso à Medicina, mas também entre a nata curitibana, sendo bastante procurada, inclusive, por jogadores de futebol dos times da capital paranaense.

Seus atendimentos seguiam sempre o mesmo ritual: conversava com a pessoa, perguntava seu nome e passava o polegar esquerdo na região afetada, seguido por um puxão e um pouco de água vegetal canforada. Quando necessário, também improvisava uma tala e ensinava exercícios para fazer (o que hoje conhecemos como Fisioterapia). Dizem ainda que quando ela percebia uma gravidade maior no caso, encaminhava para algum hospital.

Durante cinco décadas foi assim: fez massagens, chás, benzimentos para sarar quebraduras (inclusive de quem teve pernas quebradas), “costurou” e arrumou juntas. Com isso, ficou conhecida como a curadora de ossos. Tudo sempre sem cobrar nada – apenas deixava uma caixinha exposta para quem pudesse fazer alguma contribuição espontânea.

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Túmulo da Maria Polenta no Cemitério do Água Verde. Foto: José Maria Petroski/Reprodução Blog Familia Petroski

Maria Polenta faleceu aos 79 anos, em 22 de março de 1959. Seu funeral atraiu um grande cortejo e sua popularidade atravessou décadas. Até hoje, seu túmulo, na quadra 177 do Cemitério Água Verde, que eu mesma visitei tantas vezes quando era pequena, atrai fiéis e curiosos. Quem passa por lá, pode ver placas da população com dizeres como: Grato, Maria Polenta.

 

Fontes utilizadas para o artigo:
Blog Família Petroski: https://familiapetroski.blogspot.com/2014/12/maria-polenta-maria-trevisan-tortato.html?fbclid=IwAR1N1kYNOwqOUldTNB-jfRxbHKxHULUVt19K4LbgsJjE5KKRzQoRWuM7pz0
Blog Recanto das Letras: https://www.recantodasletras.com.br/biografias/5190764
Facebook da Família Tortato: https://www.facebook.com/FamiliaTortato

3 Comments

  1. DAISI BARÃO 27 de junho de 2020 at 21:54 - Reply

    Adorei a história! Para quem a conheceu, como eu, sabe da importância dela para a reabilitação de pessoas com traumas ósseos e/ou musculares.
    Agora, uma sugestão para a autora: a meia quadra da pracinha da grande Maria Polenta, na Avenida Getúlio Vargas, viveu e morreu outro ilustre curitibano chamado Abib Isfer, também dado a curas milagrosas, num misto de medicina e espiritismo. Acho que valeria a pena uma pesquisa sobre ele.

  2. Adriane Werner 28 de junho de 2020 at 13:35 - Reply

    Adorei! Amputar benzedeira, discípula DE Maria Polenta, foi a famosa d. Angelina, que dizia que a criança estava ASSUSTADA DE CAÇURINHO. 🙂

  3. Adriane Werner 28 de junho de 2020 at 20:21 - Reply

    Meu comentário saiu com erro ali em cima e não consigp editar. Hehehe. Era pra ser apenas “outra benzedeira”…

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