Publicado em 5 de junho de 2020

Considerada santa por muitos, Maria Bueno foi assassinada
em 1893 e seus devotos dizem que ela faz milagres

foto mostra o túmulo da Maria Bueno no Cemitério Municipal

Maria Bueno foi assassinada pelo seu amante e quase teve a cabeça separada do corpo à navalhadas. Foto: Divulgação

Por Carlos Bório

O Curitiba de Graça traz para você uma série especial, a “Gente Leite Quente“, com personagens que marcaram época, fizeram história e fazem parte da memória curitibana. Começamos hoje contando um pouco da história de Maria Bueno, considerada a Santa de Curitiba. Se você conhece, relembre essa história do século XIX e se você nunca ouviu falar, mergulhe de cabeça na trajetória de uma das principais personagens da história curitibana.

Maria da Conceição Bueno, santa canonizada pelo povo curitibano, repudiada pela igreja, foi assassinada a navalhadas pelo amante ciumento no dia 29 de janeiro de 1893. Quem contava bem essa história era o cineasta Valêncio Xavier, que faleceu em 2008. Resumindo, segundo Xavier, a história de Maria Bueno, a santa curitibana, é mais ou menos assim:

Aos 28 anos, lavadeira, Maria Bueno teve quase a cabeça separada do corpo à navalhada. Ela também quase teve as mãos decepadas com a mesma “arma”. Motivo? Ciúmes. Mas há controvérsias. Segundo a versão dos detratores de Maria, Diniz, seu amante, teria a proibido de ir ao bordel naquela noite. Ela desobedeceu. Como castigo, foi assassinada. Segundo os devotos, Maria Bueno foi morta ao resistir à tentativa de Diniz de estuprá-la, quando voltava de seu trabalho como lavadeira. Seu amante, Inácio José Diniz, foi preso, julgado e… absolvido.

Anos mais tarde, Diniz comete latrocínio quando da invasão pelas tropas federalistas. Pelo crime teria sido degolado por ordens do comandante federalista Gumercindo Saraiva. Para os fiéis de Maria Bueno, este é o primeiro milagre da santa: teria feito justiça com as próprias mãos. Uma santa justiceira.

Por ser prostituta, segundo alguns, os padres da Matriz recusam-se a enterrá-la. Missa? Muito menos. Outro motivo da recusa dos padres seria por Bueno ser praticante de outra religião. Umbanda? Candomblé? Maria Bueno pomba-gira?

Em 1948, Sebastião Isidoro Pereira psicografa “Maria Bueno”. Nesta visão, a santinha seria morretense, a última filha de 7 filhas mulheres. Convive com os maus tratos do pai alcoólatra e por isso vai viver com a irmã em São Luis do Purunã. Bonita, Maria Bueno provoca amores pecaminosos por parte do seu cunhado. Prevendo o pior, decide ingressar-se num convento. No entanto, os padres mandam-na para Curitiba, aos cuidados de um casal de velhos. Morto o marido, passa a ajudar a viúva fazendo serviços domésticos.

Na madrugada da sua morte, atendia uma festa, quando recebe um chamado da viúva. Embora fosse tarde, retorna para casa atravessando um matagal na rua Campos Gerais, a atual Vicente Machado, entre Visconde de Nácar e Visconde do Rio Branco. Zona do meretrício da época. Lá se encontra Diniz, emboscado. Tenta violentá-la e, ao defender-se, é degolada. Essa versão é adotada pelos devotos.

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Arnaldo Azevedo, da década de 60, cria a Irmandade Maria Bueno e resolve construir uma capela no túmulo dela. Sete virgens, médiuns e 7 videntes são convocados. Através de uma das virgens em transe, Maria Bueno concorda com a construção, reconhece como sua foto onde uma moça veste blusa com zíper. Foto essa que vai orientar um menino de dez anos a esculpir a imagem da “branca” Maria Bueno. A capela no túmulo é inaugurada no Cemitério Municipal em 1962. Com a construção novas lendas ao culto. Uma delas é a ocasião do incêndio provocado por ladrões ao tentar roubar o cofre onde os fiéis depositam suas doações. Maria Bueno teria apagado o fogo.

Os pedidos para Maria Bueno, no início, eram para casos de amor. Hoje em dia, faz milagres de cura.

Maria Bueno devolveu a fé a Raul Cruz.

Maria Bueno rendeu livros, estudos, peças de teatro (Raul Cruz), telas (a imagem acima é de Alfredo Andersen), filmes e continuará rendendo. O povo inventa-santos precisa cultuar sua imaginação.

Outra versão

Maria da Conceição Bueno nasceu perto de Morretes, num lugar chamado Rio da Prata, no dia 08 de dezembro de 1854, dia de Nossa Senhora da Conceição. O povo chamava o lugar de Biquinha de Prata, por causa da água cristalina e límpida do rio. Na noite do nascimento de Maria Bueno, sua mãe estava contente porque, na véspera, sonhou que havia visto uma santa muito bonita entrar em seu quarto. Ela teve vontade de gritar, não de medo, mas de alegria. A Santa, porém, fez um sinal, dizendo-lhe: “Júlia, não temas. Eu sou a Mãe de Jesus. Venho avisar-te que vais dar à luz a uma menina, e que está reservada a ela uma grande missão sobre a terra. Será uma alma milagrosa, que há de fazer muitos benefícios, aos seus semelhantes. Tenha Fé e Confiança”.

Contam que Pedro Bueno, embriagado, quis matar Maria Bueno, quando nasceu. Quando se preparava para arrebatar a cabeça da criança com uma garrafa, uma forte luz bateu em sua cabeça, fazendo-o cair desfalecido. Depois disso acordou diferente. Transformou-se num bom homem. Deixou de beber e adorava Maria Bueno. Mais tarde, alistou-se como voluntário, na Guerra do Paraguai, morrendo em combate.

Júlia e sua filha Maria Bueno, sempre que podiam, iam visitar seus parentes e amigos no Porto de Cima e se hospedavam na casa, onde mais tarde foi realizada a gravação da novela “Maria Bueno”, dirigida por Paulo de Avelar. Nesta casa, funcionou a Prefeitura, a cadeia e a escola Professora Benedita da Silva Vieira, segundo depoimento da Senhora Madalena Marques Ferreira, que diz que foi sua aluna. Depois, mudou-se para Campo Largo. Mais tarde, sua mãe faleceu e sua irmã Maria Rosa começou a maltratá-la, ocasião em que Maria Bueno, ajudada por alguns padres, foi para Curitiba.

Jovem, bonita, gostava de dançar, por isso vivia nos bailes. Lá conheceu Inácio Diniz, anspeçada do Exército. Ele insistiu e foi morar junto com Maria Bueno.

Uma noite, em que Diniz estava de serviço no quartel havia um grande baile. Maria Bueno queria ir dançar e Diniz não queria que ela fosse. Discutiram fortemente, Diniz foi para o quartel. Maria Bueno foi para o baile. Tarde da noite, Diniz saiu do quartel (onde hoje é o colégio São José, na Praça Rui Barbosa) e foi espionar Maria Bueno no baile. Ficou furioso e escondido nos matos da Rua Campos Gerais. (hoje Rua Vicente Machado). Quando Maria Bueno passou sozinha, matou-a com um punhal, degolando-a. Era então a madrugada do dia 29 de janeiro de 1893. O crime abalou a pequenina Curitiba da época. Diniz foi preso e julgado por um júri popular, do qual, tomaram parte proeminentes figuras curitibanas, e ele foi absolvido por unanimidade.

No lugar onde Maria Bueno morreu, foi colocada uma tosca cruz de madeira. Nos pés desta cruz, nasceu uma rosa vermelha. Maria Bueno era muito popular e admirada pelo povo, que ia rezar e acender velas. Contam que aconteceram graças e milagres, transformou-se numa grande romaria.

Na revolução Federalista de 1894, quando Gumercindo Saraiva tomou conta de Curitiba, Diniz foi fuzilado pelo Exército.

 

 

 

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One Comment

  1. Silvana Weihermann 6 de junho de 2020 at 11:28 - Reply

    Belo texto. Lindas imagens!!!

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