Curitiba é Arte: Gerson Bientinez

Gerson Bientinez, violonista e compositor curitibano, tem 250 músicas, mais de 50 parceiros letristas e uma carreira consolidada pela técnica impecável e paixão pela música brasileira

Por Irma Bicalho

Nascido em Curitiba, no ano de 1948, Gerson Bientinez se apaixonou pela música ainda criança. Nasceu e cresceu no bairro Bigorrilho, numa casa próxima à Praça 29 de Março.  Filho de Aristides Bientinez e Alda Toscani Bientinez, descendentes de imigrantes do norte da Itália, tem um irmão e duas irmãs. Foi seu pai o grande incentivador de sua relação com a música e as artes. Era comerciante, administrava a loja de móveis da família no centro de Curitiba, mas também radialista, na Rádio Marumby.

Amigo de artistas e intelectuais, Aristides proporcionou ao filho um ambiente ricamente cultural. Em casa, com a coleção de discos do pai, Gerson ouvia uma miscelânea de estilos, samba, choro, xote, jazz, ópera. Pelo rádio acompanhava os sucessos de Ary Barroso, Nelson Cavaquinho, Jacó do Bandolim e também o trabalho de artistas internacionais da era de ouro da música americana.

Encontro com a MPB

Astuto e talentoso, Gerson Bientinez foi logo buscar um instrumento para iniciar seus estudos na música. Escolheu o acordeão, aos 8 anos. Não demorou muito e já estava se apresentando em programas de auditório nas Rádios de Ponta Grossa, como a PRJ2, Rádio Difusora e Rádio Central.

Na adolescência se apaixonou pela Bossa Nova e foi arrebatado pelo instrumento que o acompanharia em toda a sua trajetória: o violão. Foi um dos primeiros músicos a realizar serenatas em Curitiba. “As pessoas nos contratavam para cantar em frente às casas, nas noites curitibanas. Eu, de smoking, com meu violão e repertório requintado. E, às vezes, até um piano chegava em cima de um caminhão para acompanhar as serenatas”, conta o músico. A Bossa Nova era a paixão da época. Sofisticada e de técnica apurada, exigia dos músicos. “Quem sabia tocar, não ensinava”, brinca Gerson. E foi a dificuldade e o charme do novo estilo musical que o conquistaram.

Gerson e seu violão, companheiro inseparável. Foto: Daniel Snege

Grandes mestres

Gerson teve mestres de dar inveja a qualquer violonista. Em 1988, ao se divorciar da primeira esposa, após um casamento de 13 anos, foi morar com Sebastião Tapajós. Este, era amigo de Claudionor Cruz, no Rio de Janeiro, com quem Gerson estreitou laços e também trocou conhecimentos musicais. Até Baden Powell, em suas visitas à capital paranaense, era acompanhado pelo violonista curitibano, que assim aperfeiçoava ainda mais sua técnica impecável junto aos amigos talentosos. Entre os nomes que influenciaram a carreira de Bientinez, ele faz questão de destacar três: o compositor, violonista e cavaquinista Claudionor Cruz, o compositor e violonista Sebastião Tapajós e o maestro, compositor e arranjador Waltel Branco.

O boêmio executivo

Sem abandonar a música, Gerson investiu também na carreira acadêmica, formando-se em Administração pela FAE. Foi executivo do BADEP, antigo Banco de Desenvolvimento Econômico do Paraná. “Eu era executivo de dia, boêmio à noite e menestrel na madrugada”, relembra.

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A carreira de administrador foi um outro importante instrumento em sua vida, pois o paramentou a ser um dos melhores diretores do Teatro Paiol, de 1986 a 1991. Foi ele quem implementou, por exemplo, o Blue Note Jazz Club, evento que reunia músicos locais e nacionais de jazz e blues na capital. Teve também forte atuação como produtor musical, realizando shows com grandes nomes como o trombonista Raul de Souza, a intérprete Alaíde Costa, o pianista e maestro Gilson Peranzzetta, o maestro Luiz Eça, o maestro multi-instrumentista Sivuca e o cantor e compositor Carlinhos Vergueiro, entre outros.

Gerson Bientinez
Em suas viagens pelo mundo Gerson se apresentou em Paris e no festival de Montreux, na Suíça. Foto: Divulgação

Nos festivais

Os festivais regionais foram de grande importância para Bientinez. Participou de vários no Paraná. No Projeto Cultural Heitor Valente em Jacarezinho, em 1983, acompanhou Herivelto Martins e ganhou seu primeiro cachê como músico profissional. Em Clevelândia, no festival de MPB, foi premiado com a música “Virá, verás”, sua primeira composição em parceria com a escritora Noely Manfredini, sobrinha do maestro Villa-Lobos.

Esteve também em festivais nacionais, representando o Paraná e trazendo diversos prêmios para o estado. No Festival da Caixa Econômica Federal de Porto Alegre, em 1989, a música “Poetas”, de Antônio Carlos Domingues e Antônio Lopes, com arranjos de Gerson Bientinez, ficou em 4º lugar geral, mas recebeu o prêmio de melhor intérprete com Rute Portugal. No Festival Nacional de MPB Carrefour, realizado em 1991 no Parque Ibirapuera, em São Paulo, a música “Os Bastidores”, feita em parceria com Gerson Fisbein, com arranjos de Saul Trumpet e Marinho Boffa e interpretada por Giseli Oliveira, ficou entre as dez finalistas, competindo com as mais de oito mil composições inscritas. Em 1998, em João Pessoa, no VI Fenec – festival promovido pela Caixa Econômica Federal, “Minha Voz”, composta e interpretada por Luciana Walt e com arranjos de Bientinez e Jefferson Sabbag, ganhou o primeiro lugar do festival e os prêmios de melhor intérprete, melhor letra, melhor arranjo e melhor música.

Entre os anos de 1996 a 2000, Gerson viajou para o exterior, participando de eventos como um festival de música latino-americana na Polônia e do Festival de Montreux, na Suíça. Passou algum tempo também tocando na noite parisiense.

Os bons amigos

Compositor e instrumentista de excelência, Gersinho, como é chamado entre os amigos, é também boa praça e querido no ramo artístico. Pelo menos três músicas foram compostas em sua homenagem: “Choro Romântico”, de Waltel Branco, Etel Frota e Rogéria Holtz; “Alegoria das Noites”, de José Alexandre Saraiva e “Choro for Gerson”, do compositor suíço radicado em Los Angeles, Antoine Salem.

Qual artista brasileiro pode se gabar de ter uma música feita em sua homenagem pelo próprio ídolo? O Gerson pode.

Discografia e novos projetos

Gerson Bientinez gravou três álbuns com suas composições. Todos estão disponíveis no Spotify.  O primeiro foi “Quinze”, lançado em 1995. Com uma pegada de samba e jazz, foi gravado no MM Estúdio, em Ipanema, Rio de Janeiro e produzido por Nelson Ângelo.

Em 2002, Gerson lançou o álbum “Alta Estima”, gravado no estúdio Trilhas Urbanas, em Curitiba. Esse trabalho evoca o samba, as baladas, valsas e bossas. A produção foi de Vicente Ribeiro.

O disco mais recente, lançado em 2018, foi uma celebração à carreira do artista: “Quarenta Anos de Música”, gravado em Curitiba, no estúdio Gramofone, com arranjos de Davi Sartori e produção de Álvaro Ramos.

Hoje, Gerson tem cerca de 250 músicas compostas, com mais de 50 parceiros letristas no Brasil e no exterior. Nos últimos dois anos, Gerson investiu na parceria com o escritor Tonicato Miranda. Juntos, eles compuseram 50 músicas. Todo esse material está sendo preparado para o próximo lançamento do artista. “Está tudo pronto. Só falta o apoio cultural para que seja lançado um próximo álbum”, revela Bientinez.

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