Vamos falar de filmes: Melhores da Netflix em 2020 – Parte 1

Nessa primeira parte, tem dramas urbanos nervosos, aventuras escapistas e ritos de passagem

Por Márcio L. Santos

E o ano já está acabando e os filmes no cinema se tornaram cada vez mais raros. Por conta disso, os serviços de streaming são aqueles que mais trazem novidades para um público ávido por entretenimento de qualidade.

Nas próximas semanas vamos mostrar alguns dos melhores filmes que estrearam no serviço Netflix. Em nossa primeira parte, temos dramas urbanos nervosos, aventuras escapistas e ritos de passagem. Em comum, a capacidade de conversar com o espectador da forma mais visceral possível.

JOIAS BRUTAS / UNCUT GEMS
Josh Safdie, Ben Safdie
2019
★★★★★

O cinema dos irmãos Safdie é urgente, é brutal. Assim já havia sido no ótimo Bom Comportamento e agora eles chegam [rapidamente] ao seu ápice neste belíssimo Uncut Gems.

Protagonizado por um absurdo Adam Sandler, o filme tem como pano de fundo a trajetória de Howard Ratner, um joalheiro cujo vício em apostas deixa sua vida em constante ebulição. Afogado em dívidas e perseguido por cobradores e agiotas, ele vê como tábua de salvação uma pedra não lapidada que, se vendida em leilão, pode lhe render alguns milhares de dólares.

Os irmãos Josh e Bem Safdie estabelecem uma dinâmica urbana única, como se o fluxo das grandes cidades fossem o motor de tudo que acontece. É um universo baseado na fama, no dinheiro, na necessidade de parecer bem sucedido, no brilho das joias, na soberba de ter amizades famosas. Ao mesmo tempo, o filme vai fundo ao mostrar como tudo isso é ilusório, como tudo, no fundo, acaba sendo calcado no mais puro e literal interesse.

Howard Ratner vagueia pelas ruas da cidade em busca de uma resposta para um pergunta que ele mesmo não sabe qual é. Uncut Gems é uma porrada. É um filme de personagens desagradáveis, falsos, ardilosos, que estão sempre tentando tirar vantagem um do outro. Assim como a pedra bruta de opala vem de minas que escravizam pessoas, os personagens aqui também são escravos de suas ações egoístas e de seus instintos irrefreáveis. O vício aqui não é apenas o da aposta. Ele está arraigado na alma destas pessoas que se julgam brilhantes, mas não passam de pedras sem polimento e sem valor.

RESGATE
Sam Hargrave
2020
★★★★

Resgate é produzido e escrito pelos irmãos Russo, responsáveis pelos sucessos Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato. A trama é o básico do básico: grupo de mercenários é contratado para resgatar um garoto, filho de um chefão das drogas indiano, sequestrado por um concorrente. No meio do resgate, o grupo é traído e o único sobrevivente precisa escapar de praticamente toda a cidade que o persegue – e entregar o garoto são e salvo ao seu destino.

As sequências de ação são impressionantes, com um equilíbrio entre a montagem taquicardíaca, quando necessário, e a possibilidade de apreciar por completo as cenas de luta, com soluções tão criativas quanto surpreendentes. Não bastasse tudo isso, o diretor Sam Hargrave entrega aqui um plano-sequência absolutamente insano, que começa numa perseguição de carros, passa por uma corrida no meio de prédios, salta de janelas e termina numa luta de facas no meio da rua. Os cortes são perceptíveis para os olhares mais atentos, mas nada que diminua o impacto de um momento cinematográfico que merece ser estudado.

O bom resultado do filme se dá também por conta de Chris Hemsworth, que possui carisma de sobre e convence muito bem como o durão de bom coração, sem que isso se torne forçado ou falso.

Resgate não foge dos clichês do gênero e na prática é bem previsível, mas tudo isso é embalado num pacote tão irresistível que não há como deixar de apreciar tamanha competência e maturidade técnica de um sujeito que está fazendo apenas o seu primeiro filme.

James Bond, Velozes e Furiosos, Marvel: não deixem esse cara escapar!

MIGNONNES
Maimouna Doucouré
2020
★★★★

Amy [Fathia Youssouf] é uma jovem senegalesa que vive com sua mãe e seus irmãos em um pequeno apartamento em Paris. Introvertida, tendo que lidar com a dor da mãe ao descobrir que o marido trará uma nova esposa para casa [há uma sequência magistral em que a garota, escondida embaixo da cama, descobre tudo isso enxergando apenas os pés da mãe] e inquieta demais para seguir os preceitos de sua religião, Amy busca identificação e talvez um sentido para sua vida que parece se encolher cada vez mais [os corredores de seu apartamento não mentem sobre isso] com um grupo de meninas que ensaia para uma apresentação musical.

Mignonnes é um rito de passagem clássico, tratada com uma empatia tocante pela diretora Doucouré. Infelizmente, por conta de uma divulgação infeliz da própria Netflix, que apresentou o filme ao público por meio de um cartaz que sexualizava da forma mais vulgar possível as garotas, a obra foi apedrejada da forma mais injusta – junte-se a isso frames descontextualizados e pessoas que pedem o cancelamento do filme sem sequer tê-lo visto e o resultado não poderia ser outro.

O filme choca, sim, mas isso ocorre muito mais porque percebemos que esta é uma realidade muito próxima de nós do que por ser algo apelativo ou de baixo nível: as garotas veem pornografia na Internet, conversam em chats com jovens mais velhos, sensualizam de forma canhestra como se tentassem alcançar um universo adulto idealizado. Amy, talvez, seja a que mais se entrega a esta fantasia de maturidade, sem sequer perceber que está completamente fora de seu habitat e ambiente. Há uma dualidade das mais dolorosas aqui: ao fugir de uma realidade patriarcal que delimita que as mulheres devem obedecer os homens – por conta da religião – Amy, em sua busca por liberdade, acaba reproduzindo este comportamento – agora no âmbito social – no qual as mulheres precisam satisfazer os homens para conseguir o que desejam – como quando ela dança para fugir de uma dupla de seguranças ou quando tenta se mostrar para o primo em troca do celular.

Na prática, Mignonnes mostra com uma crueza incômoda como a busca por likes, por aceitação, por se sentir parte de um grupo pode ser muito prejudicial, principalmente em crianças que não contam com um suporte adequado em casa. Reduzi-lo a um filme apelativo é, infelizmente, perder uma bela chance de conhecer o trabalho de uma diretora com rara sensibilidade que, infelizmente, está encarando da forma mais trágica possível essa triste cultura do cancelamento e da falta de interpretação.

 

Márcio L. Santos é jornalista, apaixonado por Star Wars, A Mosca e Os Simpsons. Costuma ver pelo menos um filme ou um episódio de série por dia e faz às vezes de crítico de cinema nas horas vagas, já tendo atuado na 91 Rádio Rock, CBN, Portal Pipoca Moderna. Atualmente colabora com o canal de Youtube Realidade Fantástica, no qual analisa diversas obras clássicas do cinema.

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