Publicado em 25 de junho de 2020

Conheça a trajetória de Rose Petenucci, que começou a vender geleias, pães e biscoitos para complementar a renda da família até conquistar o mundo com seus doces

Rose Petenucci

Foto concedida por Rose Petenucci nas semanas que antecederam à publicação

Por Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira

Com o nome em homenagem a santo, Antônia Rosemeire Petenucci, mais conhecida como Rose, nasceu em 13 de junho de 1962, no Paraná, cidade de São Jorge do Ivaí. Com uma infância itinerante, foi criada em variadas fazendas de café, fato que a levou a iniciar a escola elementar em idade um pouco mais avançada. Rose, em meio a um sorriso solto, narra acerca do período: “Os primeiros anos de escola eu fiz tudo com charrete e em cima de lombo de cavalo, então… uma vida diferente”.

Se os desafios percorridos fora da fazenda eram díspares dos vivenciados nas cidades, o tempo que passava na cozinha era quase que inerente para uma moradora da zona rural, descendente de italianos da região de Verona. De acordo com a historiadora Luce Giard, o ato de cozinhar é “o suporte de uma prática elementar, humilde, obstinada, repetida no tempo e no espaço”, com raízes nas tessituras das relações com os outros e consigo mesmo, que marca a história de cada um e está presente nas lembranças de infância como ritmos e estações (GIARD, 2013, p. 218). Rose contou que, no sítio, a alimentação era toda manipulada e cultivada pela família e que se vê envolta aos utensílios culinários e aos ensinamentos de sua mãe desde suas mais remotas lembranças.

Rose relembrou que os pães, feitos com fermentação natural, eram assados em fornos de barro, varridos com vassoura de capim. As rosquinhas e os biscoitos que sua mãe preparava eram guardados em latas para poder recepcionar parentes distantes. Do porco, proteína que rendia o mês, cada parte era elaborada de uma forma: a carne conservada na banha; o toucinho; a linguiça com tempero de cheiro-verde, alho e cebola moído e passado na máquina. Para completar o cardápio, fazia-se um doce de abóbora, enrolava-o e passava-o numa calda de açúcar, o chamado fondant de abóbora. Rose, sorrindo, explicou: “Naquela época, eu nem imaginava que aquilo que eu fazia era um fondant”.

A culinária requer inteligências múltiplas. De acordo com Luce Giard, a arte da culinária exige inteligência, memória e criatividade: inteligência programadora para calcular com perícia o tempo e intercalar as sequências e a composição dos alimentos; memória de aprendizagem, dos gestos vistos e das consistências; e engenhosidade para criar com o que se tem disponível. No caso de Rose, o tempo vivenciado na cozinha, assistindo e participando das atividades com a mãe, proporcionaram-lhe memorizar gestos, sabores, odores, cores, texturas e conhecimentos valiosos de como liderar as funções que ali eram desempenhadas.

Apesar de ter aprendido muito com sua mãe, Rose passou a desenvolver habilidades próprias, um modo inerente de fazer intervir na cozinha e nas sequências cronológicas. Luce Giard explica que cada mulher pode criar para si um estilo próprio, dando um toque especial, atenuando ou acentuando um determinado elemento de uma prática, “inventando uma maneira pessoal de caminhar através do recebido, do admitido e do já feito” (GIARD, 2013, p. 217).

Por volta de seus 12 anos de idade, era ela quem comandava a produção desse cômodo da casa. Em períodos de festas – Natal, Páscoa, aniversários, etc. – a mãe, as tias e as irmãs juntavam-se, com no mínimo uma semana de antecedência, para dar início ao preparo dos alimentos. Rose diz que ela “era meio metida a dar ordens” e organizava as mulheres na cozinha, atribuindo-lhes funções e dizendo: “Uma vai passando a calda, outra vai passando o açúcar, ou uma vai cortando e a outra enrolando…”. Para aquelas que, vez ou outra, questionavam suas ordens no recinto, Rose conta que explicava que o ordenamento agilizaria o processo. Relembrando sobre seu posicionamento de liderança, ela considera que “era uma coisa que estava ali de forma natural”, sem que ela desse a devida importância.

No entanto, no momento da escolha profissional a ser seguida, Rose desconsiderou suas habilidades e conhecimentos adquiridos na cozinha e optou por outra profissão. Pode-se compreender o posicionamento da jovem Rose uma vez que, como explica Luce Giard, as práticas culinárias situam-se no nível mais necessário e mais desprezado da vida cotidiana, uma atividade por vezes considerada simples, salvo nos casos raros em que é elevada ao extremo requinte quando o assunto é falar dos grands chefs. Ao ressignificar o passado, Rose considera que, se no período de decisão sobre seu futuro a gastronomia fosse mais valorizada, ela teria “se encontrado” mais cedo.

A formação em Educação Física levou-a a trabalhar cinco anos como professora no sistema penitenciário, nas redondezas de Curitiba. Nesse interim, Rose, em parceria com uma amiga, fazia e vendia geleias para complementar a renda da família. Com o passar do tempo, o casamento, o descontentamento com a profissão e a distância entre o emprego e sua casa, somados às dificuldades com os cuidados com seus dois filhos, levaram-na a tomar uma decisão. Rose narrou que em determinado dia, por volta de 1991, chegou em casa e comunicou ao seu marido: “A partir de agora, sou do lar”.

Só que as fronteiras do lar foram bem mais fluídas do que as portas de sua casa. Para compensar a ausência do salário que anteriormente recebia, Rose fabricava pães, biscoitos e geleias em sua cozinha. Os produtos de Rose eram vendidos para colegas de departamento do trabalho do marido, para amigas que solicitavam as iguarias e pessoas que dia a dia passavam a conhecer o sabor de suas delícias culinárias. Seus doces e biscoitos eram produzidos em seu lar e seguiam variados caminhos.

Um dos percursos levou os biscoitos de Rose, da sua cozinha, para as mãos de Julieta Reis, pessoa responsável pela Feirinha do Largo da Ordem. Desse encontro nasceu o convite para que Rose passasse a vender seus produtos na feira, que ocorre todo domingo, no Centro Histórico de Curitiba. Não importasse o tempo – frio, calor, sol, chuva – Rose vendia todos os produtos que levava. Rose comercializou em outras feiras, como a de Santa Rita, feirinha de Natal em frente ao Teatro Guaíra, mas foi na Feirinha do Largo da Ordem que boa parte de sua clientela foi formada.

Além da importância do retorno financeiro que seus clientes lhe proporcionaram, são fundamentais para Rose as respostas afetivas que as pessoas lhe dão acerca de seus produtos e a possibilidade de inventar. Luce Giard ilustra que as práticas culinárias envolvem alto grau de ritualização e um considerável investimento afetivo, e, por esses motivos, essas atividades tornam-se momentos de prazer, de invenção e de felicidade. Rose contou que, no período do Natal, fazia o stolen – pão de fruta alemã – que aprendeu com sua sogra e que, posteriormente, as pessoas ligavam agradecendo e contando sobre a experiência gastronômica. Após a reportagem publicada no jornal Gazeta do Povo, no caderno Nosso Bairro, onde Clarissa Lima (1998) contava a história de Rose, outros relatos de pessoas que mudaram de vida ou que se comoveram com sua atitude começaram a aparecer. A troca com as pessoas impulsionava-a a trabalhar ainda mais e que tudo aquilo a deixava cada vez mais realizada. Sobre a possibilidade de criar novos produtos, ela afirmou que essa é uma de suas necessidades, não importando quanto tempo gaste ou quanto produto tenha que desperdiçar para uma nova composição.

A partir dos acontecimentos do ano de 1998, foi levada a explorar novos conhecimentos. Rose narrou que esse foi um ano decisivo em sua vida: “Nesse ano fui para uma feira na França; descobri um nódulo na tiroide; separei-me do meu marido; perdi minha mãe; comprei uma casa onde instalei uma linha de produção e minha primeira loja física; e minhas vendas aumentaram em dez vezes”. Sobre a busca de novos conhecimentos, Rose revelou que na viagem para Paris, na maior feira de culinária do mundo, viu novas técnicas de produção, embalagens, formas e chocolates. Em outros lugares da França, degustou as mais variadas matérias-primas. Já na Itália, teve a oportunidade de conhecer os maquinários mais modernos e apurados no ramo. Essas experiências levaram-na a ampliar seus negócios. Rose abriu filiais e chegou a manter aproximadamente 62 colaboradores, mas questões econômicas do país e algumas noites de reflexão fizeram-na a recuar.

Contudo, os conhecimentos de Rose ultrapassam as fronteiras de seu espaço privado, avançam para o mundo e mesclam-se com saberes de variadas memórias e culturas distintas. Ensinou a fazer sua casinha de pão de mel na Alemanha; treinou a senhora da pousada para fazer geleias de manga e goiaba na Ilha de Páscoa; mostrou uma nova maneira de beneficiamento da rosa mosqueta para moradoras do Deserto do Atacama; instruiu missionários que trabalham na Índia sobre as possibilidades de uso do limão siciliano e do pepino; assim como auxiliou várias mulheres a encontrarem uma forma de renda por meio da culinária.

Rose finalizou a entrevista reconhecendo a importância de sua mãe e de sua ex-sogra na constituição de suas práticas culinárias, assim como compreende a relevância de todos os colaboradores que teve durante sua jornada, bem como tem gratidão “por todos os amigos que se tornaram clientes e por todos os clientes que se tornaram amigos”, ações que demonstram que as práticas de Rose, vivenciadas no mundo culinário, cruzam-se com as história de outras pessoas, evidenciando que seus conhecimentos, acerca dos doces e biscoitos, são “do lar” & do mundo.

Para saber mais:

Visite a loja virtual de Rose Petenucci Chocolates e Biscoitos Finos em: www.rosepetenucci.com.br . Quando a pandemia passar, visite a loja física de Rose Petenucci Chocolates e Biscoitos Finos no endereço Rua Elias Joaquim, 55 – Pilarzinho.

  • GIARD, Luce. Cozinhar. In: CERTEAU, Michel de; GIARD, Luce; MAYOL, Pierre. A invenção do cotidiano: 2. Morar, cozinhar. 12. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2013.
  • LIMA, Clarissa. Receita caseira com criatividade vira bom negócio. Gazeta do Povo, Curitiba, ano 89, 15 a 21 de out. 1998. Nosso Bairro, ano 2, p. 12.

Agradecimento à Antônia Rosemeire Petenucci que gentilmente concedeu a entrevista e a foto utilizada na coluna.

 

 

Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

10 Comments

  1. Irma Bicalho 26 de junho de 2020 at 11:42 - Reply

    Que bela história de valorização das origens e das virtudes. Quantas voltas precisamos dar para encontrarmos a nós mesmos?

    • Alexandra Ferreira Martins Ribeiro 26 de junho de 2020 at 13:47 - Reply

      Precisamos valorizar todos os saberes!

  2. Fabiane 26 de junho de 2020 at 22:29 - Reply

    .. Desde que vendi um granito pra loja do Pilarzinho… e senti aquele cheiro das bolachas… Dos chocolates… hummmm
    Ao menos páscoa e Natal estou eu lá enchendo a sacola com as delícias que só a Rose tem… Natal e páscoa aqui em casa sem produtos dela .. não existe.
    Queria muito o café devolta . Fazer compras e sair da loja com aquele gostinho é um prazer único

    • Alexandra Ferreira Martins Ribeiro 27 de junho de 2020 at 14:02 - Reply

      Sabores que marcam épocas!

  3. Sônia timi 27 de junho de 2020 at 08:33 - Reply

    E o mais gostoso é a alegria, gentileza e carinho que somos tratados quando entramos na loja, que é um colírio para nossos olhos. Parabéns Rose!

    • Alexandra Ferreira Martins Ribeiro 27 de junho de 2020 at 14:02 - Reply

      Verdade! É um carinho que contagia!

  4. Rosana Campanholo 27 de junho de 2020 at 09:14 - Reply

    Que linda historia! Adoro a Rose e seus produtos todos cheios de amor! Parabéns pelo texto super bem escrito !

  5. Alexandra Ferreira Martins Ribeiro 27 de junho de 2020 at 14:03 - Reply

    Obrigada! A história da Rose é inspiradora!

  6. Pedro 28 de junho de 2020 at 12:58 - Reply

    As bolachas dela são muito boas!
    Bela história

  7. Débora Ferreira Martins 🦋 9 de julho de 2020 at 16:12 - Reply

    Obrigada Alexandra Ferreira Martins Ribeiro por escrever e compartilhar algo tão doce e sensível. Já estamos com vontade de provar esses biscoitos.

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