Marion Dorrit Hildegard Matesich: A preocupação com mulheres e meninas

“A vida só tem sentindo se você enfrenta desafios
que podem melhorar a vida de alguém”
Marion Dorrit Hildegard Matesich, 2020

Marion Dorrit Hildegard Matesich
Foto: Acervo Pessoal

Por Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira

No final dos anos 1930, eclodiu a Segunda Guerra Mundial, o conflito militar mais sangrento de todos os tempos e que, segundo Coggiola (2015, p. 3), “foi, antes do mais, um retrocesso histórico da humanidade em seu conjunto”. Nesse período, muitas pessoas abandonaram sua casa, seu país, em busca de uma vida que lhes oferecesse segurança, trabalho e paz. Era preciso abandonar os entes queridos, as memórias, as raízes, para recomeçar sozinho, em outro lugar, e escrever uma nova história pessoal.

Foi nesse contexto que o casal Karl e Emmy Jaeger saiu da Alemanha, fugindo da guerra iminente, e escolheu o Brasil como seu novo lar. Eles não aceitavam o nacionalismo racista hitleriano.

Chegando ao Brasil, instalaram-se no Rio de Janeiro, em Copacabana, bairro em que Marion nasceu no dia 28 de janeiro de 1939. Conta ela que, segundo narrativa da mãe, Emmy, na maternidade em que nasceu, às 18h, tocava a Ave Maria, no rádio, e a mãe se emocionava muito, porque também via, pela janela do quarto, o Cristo Redentor, “que parecia caminhar pelas nuvens”.

Foram inúmeras as dificuldades pelas quais os pais de Marion passaram no Brasil, pelo fato de serem alemães. À dificuldade com a língua somava-se o preconceito contra suas origens. Assim, a família se mudou para outras cidades, até se fixar em São José dos Pinhais, onde abriu uma relojoaria, na rua XV de novembro. Nessa relojoaria, Marion conta que aprendeu a arrumar relógios com seu pai. Por fim, mudaram-se para Curitiba e ela foi estudar no Instituto de Educação do Paraná. Marion também estudou piano e fez ballet no Teatro Guaíra, tendo participado do primeiro corpo de baile e de várias operetas.

Mais tarde, obteve seu primeiro emprego, nas Listas Telefônicas, e na sequência trabalhou no Departamento de Geografia, Terras e Colonização do Estado do Paraná.

Em 1962, Marion casou-se, em Curitiba, com o sr. Juarez Matesich, com o qual teve três filhos (Marcelo, Andréa e Patrícia) e, atualmente, possui cinco netos e uma bisneta. Já casada, graduou-se em Letras Português – Inglês pela Faculdade de Ciências e Letras Tuiuti. Estudou Psicologia por três anos, curso que não concluiu por motivos de saúde. Enquanto estudava, trabalhava como corretora de imóveis.

O que nos faz apresentar a história de Marion, neste momento, não é o fato de sua família ter vivenciado as dificuldades da guerra, nem a sua titulação, mas sim seu perfil como ser humano. Marion é uma mulher atuante, corajosa, empenhada em melhorar a vida das pessoas. “Sempre gostei de enfrentar desafios, ajudando pessoas com os mais diversos problemas. Sempre fui assim, o que me motivou a seguir em frente”, explica ela.

Nesse percurso, Marion, por meio de uma amiga, Leda Franzoloso, descobriu a organização soroptimista,  ingressando na Soroptimista Internacional Curitiba Glória em 1996 e tendo como madrinha a própria Leda. “Soroptimista” significa “o melhor para as mulheres”. A organização – Soroptimista Internacional – foi fundada em 3 de outubro de 1921, em Oakland, na Califórnia, e é um movimento liderado por mulheres pioneiras e empreendedoras, que emprestam seus conhecimentos para beneficiar mulheres e meninas, movidas pelos valores: sinceridade na amizade, alegria na realização, dignidade de servir, integridade profissional e amor à pátria.

Marion identificou-se plenamente com os objetivos soroptimistas, aos quais acrescentou sua experiência no servir e sua força motivadora para melhorar a vida de mulheres e meninas, indicando-lhes o caminho da capacitação pessoal e do desenvolvimento pessoal por meio dos projetos sociais dos quais participou.

No SI Curitiba Glória, Marion ocupou diferentes cargos e foi responsável pela coordenação do Prêmio Jovem Talento e do Prêmio Ruby – Mulheres ajudando mulheres. Integrou, ainda, diversas comissões do clube, sendo homenageada, como “Soroptimista destaque”, como “Mãe Soroptimista”, em 2012, e ainda recebendo o Prêmio Pinheiro de Prata/Assiduidade.

Por intermédio do clube, desenvolveu trabalho junto à Copescarte (Cooperativa das Trabalhadoras Autônomas da Pesca e Acessórios Artesanais), ensinando artesanato com pele de peixe para aumentar a renda das mulheres marisqueiras do litoral paranaense.

As atividades sociais de Marion, no entanto, extrapolam o soroptimismo. Ela é voluntária no Instituto Humanista de Desenvolvimento Social (HUMSOL), desde sua fundação, em 2009, além de fazer parte das “Vitoriosas”, como são identificadas as mulheres que superaram o câncer. Nesse sentido, preocupada com a autoestima das mulheres acometidas de câncer de mama, que ela também vivenciou, Marion desenvolveu uma linha de turbantes, pautada num conceito de elegância, alegria e sofisticação, que são doados pela ONG às mulheres, durante o período em que realizam quimioterapia.

Como vice-presidente da ONG Centro de Convivência Menina Mulher (CCMM), contribuiu para a vinda a Curitiba da senhora Maria da Penha, que deu nome à lei contra a violência doméstica e familiar.

Marion pode ser encontrada em diversos momentos no trabalho junto às organizações de que participa. Quando se imagina que algo é impossível, lá está Marion, demonstrando ser possível o que não se imaginava. Desde apoiando meninas e mulheres em situação de risco, por meio da profissionalização e do apoio médico e psicológico para portadoras do vírus HIV, ajudando mulheres a conquistar seus sonhos familiares e profissionais, organizando baile de debutantes para as meninas participantes do projeto, até arrecadando presentes de Natal. Possui uma extraordinária inteligência interpessoal.

Pela relevância dos serviços prestados à comunidade, em 2015, a Câmara Municipal de Curitiba concedeu a Marion Dorrit Hildegard Matesich o título de Cidadã Honorária de Curitiba. Embora carioca da gema, Marion é hoje também curitibana.

Para saber mais sobre as organizações mencionadas no texto

Referência

Agradecimentos

Nossos agradecimentos à sra. Marion Matesich e à sua filha, Andrea Matesich, pela entrevista concedida e pela cessão da foto que ilustra a coluna.

 

 

Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

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