Finalistas Prêmio Jabuti: Uma rosa é uma rosa que está uma rosa

Em seu livro “Rosa que está”, a poeta curitibana Luci Collin traz a reflexão do “estar” ao invés do “ser”

Por Camile Triska

“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”, a famosa frase de Gertrude Stein foi um novo “ser ou não ser” do século XX. Já, agora, no século XXI, a poeta curitibana Luci Collin traz uma rosa pós-modernista que reflete sobre “o estar” em seu último livro “Rosa que está” (Editora Iluminuras), um dos finalistas do Prêmio Jabuti 2020 na categoria Poesia, que terá o resultado divulgado em 26 de novembro, e também concorre ao Prêmio Oceanos.

Embora o livro venha dessa indagação do “estar”, outros temas recorrentes da poeta também surgem entre os versos, como a passagem do tempo, a reconciliação com o passado, as dores das perdas, a alegria das descobertas, a finitude de todas as experiências da vida.

LIDA
nesse dia mesmo
em que se é pura perda
em que se sofre saques e ludíbrio
     catar os cacos
porque seguem tendo a mesma feição do todo
    ajuntar migalha e estilhaço
e conjugar em modo subjuntivo
porque se quer depurar o que nos diz
o exórdio das rosas de inédito semanticismo

e não se pode demorar tempo
porque instaura-se um limo impeditivo
e mirram-se asas e expiram voos
e não se queira demorar tempo
porque precisa-se de quem cuspa firme à distância
de quem preste-se a ter os pés queimados pela brasa
de quem espane o logro dos discursos ferrugentos
e delate a rigidez das pétalas dissimuladas
de quem cutuque de quem esgaravate
porque nesse dia mesmo
não se pode mais tomar como acalanto
a ode espúria dos cínicos
e não se pode mais tingir de falso rubro
o fundamento do sangue
e não se pode permitir que façam gorar
a pulsão apta e evoluída
flórea e vigorosa
do verso

Poema de Luci Collin em “Rosa que está”

E nesta vida, entre o ser e o estar, como é escrever poesia, como é estar poeta hoje? Para Luci, que também é escritora de prosa, o poeta é menos experimental, embora invista bastante na forma e na linguagem dos poemas, talvez, de uma forma mais introspectiva. No caso da escrita da prosa, ela se define como mais ousada, tanto na linguagem quanto nos temas. “Mas há sempre, independentemente do gênero literário, aquela vontade enorme de estar com o outro por meio das palavras, dividindo o que for possível de emoções, de surpresas, de encantamentos com o estar aqui”, afirma ela em entrevista exclusiva para o Curitiba de Graça.

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Cerca de seis meses passam entre a ideia e a finalização de um livro de poesias da escritora. “É um tempo necessário para que os poemas cheguem, apresentem-se, tomem forma e amadureçam enquanto uma coletânea. O Rosa que está veio de um jorro. Foi um processo de escrita muito intenso e que me emocionou bastante”, conta, observando que é preciso manter uma liberdade na produção, sem pressões, para deixar a escrita se manifestar espontaneamente.

A poesia no dia a dia

A poesia, hoje em dia, nem sempre atrai tantos os leitores. Segundo Luci, essas premiações, muito mais do que provocar um orgulho em ser finalista, podem ajudar a dar mais visibilidade à produção desse gênero literário.

Essa não é a primeira vez que Luci Collin figura entre os finalistas do Prêmio Jabuti. Em 2017, ela ganhou o segundo lugar, também na categoria Poesia, com o livro “A palavra algo” (Editora Iluminuras).

Foto: Divulgação/Editora Iluminuras

“Rosa que está” é o décimo primeiro livro de poesias de Luci, que teve sua formação inicial como musicista, mas encontrou na literatura a sua trajetória a partir de 1984, quando lançou seus primeiros poemas em “Estarrecer” (Editora Astarte).

Indo além dos versos, Luci também já lançou sete livros de contos, quatro romances, participa de diversas antologias, é tradutora e ministra cursos em diversas instituições.

E para quem ainda não leu “Rosa que está” ou os outros livros da escritora, logo terá ainda mais obras para conhecer: ela acabou de terminar um novo livro de contos e está finalizando mais um de poesia e trabalhando em outras três traduções.

Em meio a toda escrita, enquanto resultados dos prêmios não vem, Luci está como nós, amantes dos livros: lendo, ouvindo os pássaros e ouvindo a chuva nas raras vezes em que ela nos molha nesses dias de estiagem em que as rosas estão lutando para sobreviver.

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