Filme paranaense, Alice Júnior, chega à Netflix

“Alice Júnior” é um filme ao estilo sessão da tarde dos novos tempos

Por Kristiane Rothstein

O relato do cotidiano de uma adolescente trans que procura por aceitação própria e do outro. Falando assim, parece que “Alice Júnior” é um filme de temática pesada, que traz muitas reflexões e dramas. O filme que chegou, na última quarta-feira (14/10), à plataforma de streaming mais importante da atualidade, a Netflix, sim, é um filme que leva à reflexão, mas é leve, “um sopro de carinho” como bem define o crítico de cinema, Marden Machado (leia a crítica AQUI), que emenda: “Aquele tipo de filme que deveria ser exibido e discutido nas escolas, nas igrejas e nas famílias.”

O apoio e amor do pai, ser uma youtuber bem relacionada e a posição financeira privilegiada, claro, ajudam em muito para tornar a história da protagonista Alice Júnior uma comédia que traz um frescor. No entanto, por onde passa, o filme mostra que sua temática não se evapora em brancas nuvens. Pelo contrário, envolve o telespectador e traz à discussão a necessidade da inclusão. Inclusão esta que teve maior cuidado pelos realizadores do filme, que fizeram questão de ouvir e aceitar as sugestões trazidas pela atriz iniciante, Anne Celestino Mota, que veio de Recife participar de seletiva em Curitiba.

O diretor Gil Baroni e o roteirista Luiz Bertazzo acolheram a proposta da garota em fazer algumas alterações no roteiro original para incluir questões do cotidiano trans. Como quando uma colega questiona se ela é transexual e a personagem explica que essa não é uma pergunta que não deve ser feita. Outra inserção bem pessoal é quando indaga ao pai se está feminina. Mesmo com a resposta de que “está linda”, a preocupação da personagem é com a feminilidade. A atriz lembra que essa é uma questão que sempre conversou com a mãe e que faz parte das suas preocupações.

Tirando o fato da protagonista ser trans, “Alice Júnior” lembra muito os filmes das décadas de 1980 e 1990, que embalavam as tardes globais na televisão, e abordavam a aceitação, o bullying (quando ainda nem tinha este nome) e a necessidade de pertencimento a um grupo.

alice junior
Mesmo abordando um tema ainda tabu na sociedade, o filme “Alice Junior” consegue ser leve. Foto: Divulgação

Em entrevista ao coletivo JACCU (Jornalistas Autônomos Culturais de Curitiba), o diretor Gil Baroni comentou que o filme é uma grande vitória também para o cinema paranaense. E não é pra menos, essa é a primeira vez que um filme made in Paraná é selecionado para o Festival de Berlim. “Fomos aplaudidos de pé. A gente se olhou e disse ‘o que tá acontecendo?’ Eu não imaginava que teria no exterior a mesma receptividade que tivemos no Brasil. Ficamos chocados!”, contou Baroni, que tem três longas no currículo, aos jornalistas Flávio Jayme, Mardem Machado, Abonico Smith e Janaina Monteiro, que também escreveu uma resenha sobre o filme.

Dentro do país, Alice Júnior já tinha chamado muito a atenção. No Festival de Brasília levou quatro prêmios: melhor atriz para Anne Celestino, atriz coadjuvante para Thais Schier, montagem para Pedro Giongo e trilha sonora para Vinicius Nisi.

Curtindo a vida numa sessão da tarde LGBTQIA+

O elenco e produção quase todo é paranaense, assim como o diretor Gil Baroni, e o roteirista Luiz Bertazzo, que mora na capital há muitos anos. A protagonista Anne Celestino Mota é recifense e foi a responsável por fazer os roteiristas Luiz Bertazzo e Adriel Nizer Silva modificarem o texto, já que, inicialmente, a história retrataria uma garota que viria de São Paulo para morar no sul do país, na fictícia Araucária do Sul. Com a mudança, pai e filha vieram de Recife, onde a personagem já tinha sua “bolha” formada.

“Uma nordestina no sul do país traria mais camada ao roteiro. Por ela ter sotaque nordestino, o pai, francês, trouxe mais possibilidades”, avalia Bertazzo. Ele revela que desde o início da concepção do enredo a intenção era ter um estilo de “sessão da tarde LGBTQIA+: O primeiro beijo de uma garota trans”, diz.

VEJA TAMBÉM: Jornalista curitibano lança guia da Netflix para ajudar público a escolher filmes e séries

Na história, ao mudar de cidade e ter que estudar numa escola conservadora, faz a personagem se deparar com conflitos e todos os problemas para ser aceita e poder ter o mínimo de direitos, como ter seu nome social na chamada escolar ou poder usar o banheiro feminino.

Outras mudanças no roteiro foram deixar a personagem um pouco mais velha, ao invés de 14, 15 anos, optou-se por alguém que já estivesse fazendo o último ano do Ensino Médico e aproveitaram o fato de Anne ser youtuber (conheça o canal dela AQUI, com curiosidades sobre o filme).

Apesar do filme não ter ganhado a telona, como era pra ser entre junho e julho deste ano se não houvesse pandemia, chegar à maior plataforma de streaming da atualidade pode levar a produção para o grande público e promover a discussão desejada. “É muito mais do que ensinar pessoas do ensino médio. Queremos ver todos debatendo, comentando o filme”, disseram Anne, Bertazzo e Baroni ao JACCU.

“Transfake”

Em seu canal no YouTube “Transtornada”, a atriz discute questões relacionadas a LGBTQIA+, especialmente transfobia. Com o papel e o reconhecimento como atriz, já que ganhou dois prêmios de melhor atriz com o filme, uma das bandeiras de Anne é abrir espaço para artistas transgênero.

“Enquanto uma pessoa cisgênero [que se identifica com o mesmo gênero que nasce] estiver fazendo o papel de uma pessoa trans, é o nosso corpo que não estará ali na tela. Se uma pessoa trans, fora da tela, se ver ali representada, ganha identidade. Assim como temos o Pantera Negra [super-herói negro da Marvel Comics que foi interpretado pelo ator Chadwick Boseman, que faleceu neste ano], a gente também precisa dessa representatividade para as crianças e adolescentes trans, porque eles também existem”, disse em entrevista ao JACCU, e chama de “transfake” os personagens trans interpretados por atores que não são transgênero.

Cachaça Horn

Uma personagem que traz leveza ao filme é a “bicho-grilo” Marisa, interpretada pela atriz Katia Horn. Para saber mais sobre o filme, o Curitiba de Graça conversou com a atriz no último dia 15 de outubro.

Katia dá vida à mãe de um garoto homossexual que sonha ser estilista. A curiosidade extra sobre a personagem fica por conta da sua profissão: uma produtora de cachaça, a “saborosa” Cachaça Horn, que ocupa um papel de destaque na trama.

A relação entre ficção e realidade não fica apenas no nome da bebida cênica. Marisa foi uma personagem escrita especialmente para ela pelo roteirista e preparador de elenco, Luiz Bertazzo. “Quando a gente chega a Curitiba [ele é do Mato Grosso] é preciso ter contato com a família Horn. É uma família toda artística, um canta, outra é atriz, outra pinta, outro escreve…”, conta.

“Para mim, é um luxo ter essa personagem. Adorei fazer a Marisa,
adorei a experiência, foi tudo muito amoroso”, diz Katia, que amou a
homenagem e deseja que o filme possa virar série ou ter continuidades

Ela, que também é cenógrafa e artista visual, conta que Alice Júnior é sua estreia em um longa-metragem. “Embora eu já tenha feito muitas pontas, é o meu primeiro longa e fico muito feliz em ter estreado em um filme como esse.”

Para a atriz, o Alice Júnior traz uma expectativa muito grande, não apenas da obra pela obra, mas porque é muito relevante para o momento político da sociedade no país. “Temos visto coisas absurdas, um retorno à barbárie. É preciso que as pessoas se abram para o outro e não fiquem presas a formatos pré-determinados”, afirma. “Alice Júnior traz uma esperança que a gente pode mudar esses padrões tortos atuais. Precisamos saber para que lado olhar, quem está aí não ficará no poder a vida inteira.”

Conheça os prêmios que o paranaense Alice Júnior recebeu

No exterior, “Alice Júnior” foi selecionado para a Mostra Generation do 70º Festival Internacional de Cinema de Berlim (Alemanha, 2020); ganhou o Prêmio de Melhor Longa-metragem de Ficção pelo Júri no 33º aGLIFF – All Genders, Lifestyles, and Identities Film Festival (EUA, 2020).

Recebeu Menção Honrosa do Júri na categoria International Narrative Feature no Outfest Los Angeles LGBTQ Film Festival (EUA, 2020), foi indicado ao Prêmio Sebastiane Latino Award (Espanha, 2020), faz parte da Seleção Oficial do 44º Frameline: The San Francisco International LGBTQ+ Film Festival (EUA, 2020), da Seleção Oficial no FESTin Porto (Portugal, 2020), da Seleção Oficial no 43º LUCAS – International Festival for Young Film Lovers (Alemanha, 2020), da Seleção Oficial no 30º Inside Out Toronto LGBT Film Festival (Canadá, 2020) e da Seleção Oficial no 16º GAZE – International LGBTQ+ Film Festival (Irlanda, 2020).

No Brasil, da Mostra Competitiva do 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (2019) levou quatro Candangos: prêmio de Melhor Atriz para Anne Mota, Melhor Atriz Coadjuvante para Thaís Schier, Melhor Montagem e Melhor Trilha Sonora. Ganhou o prêmio Félix de Melhor Longa-metragem Brasileiro e Melhor Filme pelo Júri Popular da Mostra Geração no Festival do Rio – Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro (2019).

Ganhou prêmio do Público de Melhor Longa-metragem Nacional, prêmio do Júri de Melhor Interpretação para Anne Mota e Menção Honrosa do Júri na Mostra Competitiva do 27º Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade (2019). Participou da Seleção Oficial na Mostra Competitiva do 26º Festival de Cinema de Vitória (2019), da Seleção Oficial na Mostra Brasil da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (2019), da Seleção Oficial na Mostra Não Competitiva do 14º Encontro Nacional de Cinema e Vídeo dos Sertões (2019), da Seleção Oficial na Mostra Acessível do 13º For Rainbow – Festival de Cinema e Cultura da Diversidade Sexual e de Gênero no Brasil (2019), da Seleção Oficial na 10ª Mostra Audiovisual de Petrópolis (2019) e da Seleção Oficial no 21º Festival Kinoarte de Cinema (2019).

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