Coluna Feijão com Arroz: Parece, mas não é

Tem gosto parecido, tem cheiro semelhante e olhando assim por cima… até engana. Será que a receita “parece, mas não é” merece uma chance?

Arte: Maria Clara Bicalho Patzsch
Arte: Maria Clara Bicalho Patzsch

Por Irma Bicalho

Qual relação da fé com a culinária? Pode ser mais íntima do que imaginamos. Você olha para aquele pudim de leite condensado, sente o cheiro do caramelo e acredita piamente que está comendo pudim de leite. Mas, não está. É um pudim de banana. Ou então se delicia com um maravilhoso curau que… Surpresa! Passou longe do milho verde. Isso é possível? Pode crer que sim.

Uma vez estava assistindo ao programa de uma famosa apresentadora que conversa com papagaios, quando ela anunciou a receita de um caviar especial. Só de ouvir a chamada já desconfiei que aquilo não iria prestar. Quando ela finalmente ensinou a receita, fiquei pasma. Era um caviar de sagu. Pensei: para que isso, meu Deus! Se eu não posso comer caviar, eu fico sem comer. Melhor do que provar uma receita de sagu salgado e tingido com gosto de peixe. Deixo claro aqui que nunca fiz essa receita, por falta total de interesse.

O episódio despertou em mim a reflexão sobre o que vale a pena a gente inventar para substituir ingredientes e o que é melhor deixar de lado e partir para outra. Por exemplo, mousse de chocolate vegano. Pode até ser que você tenha uma receita muito boa disso. Mas eu testei uma que substituía o creme de leite por abacate. E ao invés de açúcar, levava tâmaras. O chocolate, felizmente, não era substituído, entrando na receita como cacau 100% puro. Fiz a sobremesa e servi, anunciando em casa que era mousse de chocolate. Bem, talvez, se eu tivesse falado que era creme de abacate com cacau, quem sabe o pessoal tivesse gostado e eu não precisaria comer vários potinhos durante três dias para não jogar comida fora. O que me fez concluir que tentar dar o mesmo nome a pratos totalmente diferentes não é uma boa. É abusar da fé e do paladar das pessoas.

Não me entenda mal. Acho digno e necessário ter alternativas para certos ingredientes. Como substituir o leite de vaca por leite vegetal para evitar a lactose. Usar farinha de arroz no lugar da farinha de trigo para se livrar do glúten. É uma questão de saúde para muitos. O que eu não gosto é de dizer que o alternativo vai ficar com o mesmo sabor e com a mesma consistência que o original. Não vai. Pode até ficar delicioso, mas não vai ficar igual. E se a gente tem essa noção como premissa, fica até mais fácil aceitar as restrições ou simplesmente se aventurar na cozinha em busca de novas experiências.

Quer se aventurar? Que tal um pudim que tem a mesma aparência do pudim de leite condensado, mas na verdade é de banana, bem prático? Primeiro faça a calda de caramelo. Coloque uma xícara de açúcar numa panela de fundo grosso para derreter. Mexa sempre, com paciência até que o açúcar derreta por completo formando uma calda grossa e espessa. Acrescente aos poucos meia xícara de água, mexendo a cada vez, para que a água se misture com a calda. Cuidado para não se queimar com o vapor. Depois que terminar de misturar tudo, deixe ferver por um minuto e desligue. Coloque o caramelo no fundo de uma forma para pudim, aquela com um buraco no meio. Depois bata no liquidificador quatro bananas de qualquer tipo, quatro ovos e 400 ml de leite por dois minutos. Despeje na forma e leve ao fogo em banho maria. Pode ser numa panela grande, não precisa ser no forno. Deixe cozinhar por 20 minutos. E pronto. Quando estiver morno pode desenformar. A vantagem dessa receita é que leva bem menos açúcar que o pudim tradicional, que além da calda de caramelo tem o leite condensado. Repare que na massa desse pudim o dulçor vem apenas da fruta. Fica bem leve, com um gostinho suave de banana e tão bonito quanto o pudim de leite.

Outra artimanha culinária é o “curau” de abóbora. Sabe que se você fechar os olhos e provar tem mesmo um gostinho, lá no fundo, de milho verde. Ou será a minha imaginação? De qualquer forma, eu acho que gosto mais de abóbora do que de milho, então, para mim, é apenas mais uma receita saborosa e nutritiva. Cozinhe 3 xícaras (300g) de cubos de abóbora japonesa Kabotiá (aquela da casca verde escura e enrugada) em 300 ml de água com dois paus de canela. Depois de cozidos, retire a canela e bata no liquidificador com meio litro de leite e 4 colheres de sopa de maisena (32g). Em uma panela, aqueça meio litro de leite, 1 xícara e 1/3 de açúcar (240g) e duas colheres de sopa de manteiga (40g). Assim que ferver, coloque a mistura de abóbora e cozinhe até ficar com a consistência de mingau. Depois coloque em uma tigela, salpique mais canela, se gostar, e sirva gelado. É curau? Não. Mas é tão bom quanto.

Se você se interessou pelas receitas que parecem, mas não são, gostaria de sugerir um livro bem divertido. Chama-se “A mágica na Cozinha – Curiosidades, truques e fingimentos da gastronomia”, de Renato Freire. O autor fala sobre alimentos que fingem, seja pelo sabor, pelo cheiro, pela aparência e assim vai. E tem várias receitas também, inclusive a do curau de abóbora e a do caviar de sagu.

Divirtam-se! E não esquece de comentar se você achou bacana. Meu e-mail é [email protected]. E se quiser mais receitas e historinhas ao pé do fogão, siga a página do Feijão com Arroz no Facebook.

 

 

Irma Bicalho é uma das editoras do Curitiba de Graça, jornalista, formada pela PUC-PR, dona de casa, mãe de quatro filhos e tutora de três cachorros e três gatos. Há três anos se formou no curso de Cozinheira do Senac-PR. Desde então tem se dedicado mais a duas de suas grandes paixões: comer e cozinhar.

 

 

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