Alexandra Pereira de Castro: a glória e as amarguras de uma fazendeira do Norte Pioneiro

Em um artigo de uma revista da época no Norte Pioneiro, Alexandra foi descrita apenas como esposa, sem menção ao duro trabalho que tinha como mãe e administradora de propriedades

Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira
Em 10 de março de 1919 nasceu Alexandra Pereira de Castro, na cidade de Santo Antônio da Platina. Seus pais, os fazendeiros de café Olímpia e Joaquim, e seu local de nascimento, o Norte Pioneiro Paranaense1, projetaram algumas disposições na vida de Alexandra.
Alexandra era fruto do segundo casamento de Joaquim. Após a morte da primeira esposa, Joaquim casou-se com a cunhada Olímpia, prática comum do período para que as posses fossem mantidas em uma mesma família. Da união entre Joaquim e Olímpia nasceram 12 filhos – 10 homens e 2 mulheres – Alexandra e Maria. Sua infância e adolescência foram uma mescla de trabalho e confraternização. Apesar de ter nascido na “casa grande” da fazenda, o trabalho era intenso. Os filhos homens iam com seu pai para as lavouras de café e ela, sua irmã e sua mãe cuidavam dos afazeres domésticos.
Em entrevista para as autoras, sua filha Nadir afirmou que Alexandra era uma mulher de “muita opinião” e que contava para as filhas histórias sobre sua juventude e relação com os pais. Uma dessas histórias reflete o trabalho e os castigos impostos pela mãe Olímpia. Nadir narrou: “Ela punha a trouxa de roupa na cabeça pra ir lavar no riacho perto da casa. Quando sua mãe Olímpia dizia para que ela colocasse as roupas no chão, para levar uma surra, ela respondia em tom de voz firme: Pode bater”. Nas histórias que narrava sobre sua trajetória, Alexandra procurava salientar sua personalidade forte e determinada desde a juventude.
O pai de Alexandra era bastante instruído e considerava a educação dos filhos importante, por isso proporcionou estudos igualmente para a prole, que recebia em casa uma professora para ensinar tantos os meninos quanto as meninas. Além disso, ele era conhecido na comunidade, promovia grandes festas na fazenda e o povo comparecia para a festança. Sua importância nas redondezas fazia com que os filhos e as filhas fossem partidos disputados na localidade.
Aos 16 anos de idade, Alexandra estava prometida para casar-se com outro homem quando conheceu aquele que viria a ser o amor de sua vida. Era costume, nos fins de semana, passear na praça em frente à Catedral de Santo Antônio da Platina. As meninas davam a volta em um sentido e os rapazes no outro. Foi em um desses passeios que Alexandra avistou o lindo homem de 25 anos, recém-saído do exército, por quem se apaixonou. Contrariando seus pais, Alexandra casou-se com Joaquim, jurando com ele estar “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza…”.
Nadir narra que Alexandra deixou a confortável residência dos pais para ir morar em um rancho de madeira simples, 15 dias após o casamento. O barraco de madeira, que abrigava até os cavalos, ficava às margens do rio Jacaré. Tudo era muito simples e rústico. Para fazer prateleiras de louças, Alexandra procurou tábuas velhas. Mas foi nesse local, depois de sete anos trabalhando com as safras de café2 e a criação de porcos, que o casal guardou o suficiente para comprar a primeira fazenda de 86 alqueires, no município de Arapongas.
As propriedades e atividades do casal Alexandra e Joaquim foram tema de artigo intitulado “A obra expressiva”, do Sr. Joaquim Ferreira Leite, no Norte do Paraná, publicado na Revista do Café, no ano de 1952. Nesse período, eles já possuíam duas fazendas, uma localizada em Arapongas e outra em Campo Mourão. A primeira tinha “área de 86 alqueires com 50.000 pés de café3 e 50 alqueires de invernada com 180 cabeças de boi-búfalo”, e a segunda “com área de 143 alqueires de excelentes terras”, dedicada “ao plantio de cereais e à criação de gado em larga escala, leiteiro e de corte”.
Alexandra e Joaquim foram representados nas páginas do artigo. Sobre Joaquim Ferreira Leite, o artigo destacava que seu nome representava “uma autoridade de real projeção nos círculos sociais, políticos e rurais do Norte do Paraná” devido à sua exímia contribuição rural e política para o progresso da região. Quanto à Alexandra, coube ao artigo descrevê-la como “D. Alexandrina”, esposa do “cafeicultor e político emérito”.
Para complementar a matéria, 18 fotos ilustraram as cinco páginas do artigo. As imagens mostram Joaquim na constante companhia dos filhos, em meio aos cafezais e ao rebanho de búfalos, bem como a criação de suínos e de gado, na companhia dos amigos, dos animais de estimação e do carro imprescindível para as “importantes transações comerciais”. Alexandra aparece em três imagens, usando um vestido alinhado e com elegante penteado nos cabelos, sendo representada no papel de esposa da “família feliz”. As elegantes imagens não revelam o duro trabalho que Alexandra desempenhava como mãe e administradora das propriedades.
Alexandra permanecia nas propriedades enquanto seu esposo viajava para diversas localidades do Brasil. A filha Nadir relembra que o pai voltava para casa e ali ficava apenas o prazo de colocar em ordem as malas repletas de ternos, finas camisas, cuecas e meias brancas, seguindo novamente viagem. As constantes viagens do marido colocavam Alexandra à frente das decisões e dos afazeres cotidianos das fazendas.
Na casa havia muitos empregados para ajudar nos diversos trabalhos, mas o dia de Alexandra iniciava ainda na madrugada. O retireiro de leite começava o trabalho às 5h30 e, a partir desse momento, Alexandra dava início à produção diária de aproximadamente 10 quilos de queijo coalho. Na morte de um porco ou de uma novilha de vaca, era preciso o trabalho rápido para que a carne fosse aproveitada para uso na casa. Latões de 20 litros eram usados para socar a cinzas com água e originar soda, líquido utilizado na fabricação de sabão. As roupas para as famílias de empreiteiros das colônias4 eram confeccionadas por Alexandra. O pagamento para os peões era anotado nos livro-caixa e quando ocorria algum problema com alguém que estava sob seus cuidados, que fosse além de suas capacidades de apaziguamento, ela recorria ao delegado para resolução. Na ausência do marido, a administração das fazendas ficava por conta de Alexandra.
A atenção para os filhos também consumia parte de seu tempo. Sua filha Nadir relembra-se que a mãe “não tinha tempo pra nada” e quando ela pensava em “descansar um pouquinho, a criança chorava e ela tinha que voltar pra cozinha e fazer mamadeira, pois sempre tinha criança pequena”. Alexandra “deu à luz” 11 bebês. Dois nasceram5 mortos, uma morreu com sete meses, outra faleceu aos dezesseis anos e outro aos vinte e três anos. Mas à Alexandra não era permitido chorar a morte de sua prole, pois ela precisava se preocupar com os seis filhos vivos e com a doença cardíaca do marido.
A falência dos negócios veio para mudar a vida de Alexandra e de sua família. O esbanjamento de dinheiro em múltiplas viagens, em negócios malsucedidos e o envolvimento com a política já tinham provocado a hipoteca das fazendas no ano de 1953. No ano seguinte, era esperado que a colheita de café rendesse bons lucros, mas, com a geada de 1954, as dívidas não puderam ser sanadas e tudo foi perdido. Depois foi uma sucessão de mudanças entre Nova Aurora, Cascavel, São Miguel do Iguaçu e Santo Antônio da Platina, até que a família, pouco a pouco, veio a instalar-se na cidade São José dos Pinhais.
Na Região Metropolitana de Curitiba, o sofrimento foi intensificado pela doença agravada de Joaquim e pela falta de dinheiro. Primeiro, na busca por emprego, seus filhos Israel e Ismael se alojaram junto à filha Judite e seu esposo na cidade de São José dos Pinhais. Depois foi a vez de Alexandra, o marido e suas filhas Nadir, Maria e Aparecida se instalarem em uma moradia de duas peças. A filha Nadir conta que foram momentos difíceis:

Mamãe ganhava pão velho e trazia para casa para que comêssemos… era o que tínhamos. Depois de três meses que estávamos aqui, graças a Deus, entrei trabalhar em uma usina de laticínios, aí não faltava leite, mas muitos pagamentos que eu não recebi nem um tostão. Todo meu dinheiro ia para remédios para meu pai (CARRARO, 2021).

Alexandra dedicou atenção intensiva aos cuidados com Joaquim durante os dois anos e meio que antecederam a morte do marido. Nadir conta que por muitas vezes o pai, acamado, pedia perdão e Alexandra respondia que o perdoava e o compreendia. Sobre o amor de Alexandra por Joaquim, a filha ainda complementou: “Mamãe amou demais aquele homem. Na hora da morte, ele ainda falou assim: Alexandra, vamos comigo nessa viagem? E ela falou: Não, não posso ir. Eu tenho que ficar” (CARRARO, 2021). Após o falecimento do esposo em março de 1968, Alexandra voltou a atenção para as necessidades dos filhos e dos netos.
A casa de Alexandra era um local especial para os netos. A neta, de nome homônimo, relembra carinhosamente da avó e dos momentos em que na casa dela passava. O casco de jabuti repleto de retalhos que ficava ao lado da base de metal da máquina de costura Singer; a cristaleira, que além de guardar a louças e os potes com amendoim doce, abrigava o pote de vidro com centenas de botões de múltiplas cores, formatos e tamanhos; o assoalho de madeira que semanalmente era encerado, após passar a palha de aço, para depois ser lustrado pelas filhas Nadir e Aparecida; os ensinamentos de Alexandra sobre os trabalhos manuais de como cortar e costurar as roupas para as bonecas ou bordar o nome nos delicados lenços de cambraia branco; os pés de macieira, caqui e mexerica, nos quais os pequenos passavam tardes pendurados; o sofá-cama de couro vermelho que servia como esconderijo das crianças; as noites em que Alexandra, ao lado de sua cama, arrumava um local aconchegante para o pouso de seus queridos netos, os quais rezavam o rosário no momento que antecedia o confortável sono; os virados de banana, os pudins de pão, as coalhadas, o requeijão e o doce de leite caseiro. Cada detalhe transformou-se em uma linda memória, um local de aconchego sempre existente mesmo depois que Alexandra partiu.
Para o momento de sua morte, Alexandra tinha deixado as despesas pagas e as prescrições de seu velório. O travesseiro com folhas de mexerica e as vestimentas fúnebres já haviam sido solicitadas. Sobre os dias que antecederam o momento derradeiro da mãe Alexandra, Nadir narrou:

Mamãe dizia que sentia morrer e não poder mais rezar pela família. Ela também gostava muito de música, em especial da canção Non, je ne regrette rien, de Édith Piaf, e falava assim: Liga o rádio Nadir, pra você ouvir, porque daqui a alguns dias eu não vou poder ouvir mais e você vai continuar ouvindo, vendo o sol nascer, vendo a lua, as estrelas e eu não poderei ver mais (CARRARO, 2021).

Alexandra faleceu em 21 de abril de 1993 e foi velada “à moda antiga”, na sala da casa, com velas e flores que davam seu ar fúnebre. A residência ficou lotada de familiares, vizinhos e amigos, que passaram a noite orando para despedir-se da amorosa, devota, honrada e corajosa Alexandra.
1 O Norte Pioneiro do Paraná, mesorregião assim denominada por ter impulsionado a colonização do Norte do Paraná. A mesorregião do Norte Pioneiro é composta por cinco microrregiões: a microrregião de Assaí, de Cornélio Procópio, de Jacarezinho, de Ibaiti e a de Wenceslau Braz. O processo histórico da região iniciou-se no final do século XIX, devido aos interesses de fazendeiros na implantação de lavouras de café. “No fim do século XIX e no início do século XX a extensão dos cafeeiros paulistas atingiu o Paraná. Com o aumento excessivo da produção e da oferta, em 1902 o Estado de São Paulo adotou políticas de restrição da produção do café́, proibindo o seu plantio por um período de cinco anos. Em função desse problema os fazendeiros paulistas optaram em procurar terras no Norte do Paraná́, impulsionando a expansão cafeeira no Estado. […]. Por outro lado, e contraditoriamente, o governo paranaense incentivava a cafeicultura no estado, reduzindo as taxas de exportação do café e procurando incentivar o plantio e atrair novos fazendeiros” (PRIORI, A. et al., 2012).
2Pela explicação histórica de Priori et al., é possível compreender o rápido enriquecimento dos produtores de café da região. “Muito mais do que viver uma fase de produção, o café se transformou em orgulho paranaense por simbolizar riqueza, desenvolver cidades, atrair investidores e modernizar algumas regiões do Estado. O café trouxe povoamento, modernização e dinamizou os transportes e as comunicações. Em função do ‘ouro negro’, como o café́ foi chamado na época, muitas cidades enriqueceram” (PRIORI, A. et al., 2012).
3Até por volta da década de 50 do século XX, o sistema de trabalho nas lavouras cafeeiras compreendia os fazendeiros – proprietários das terras –, os colonos, os parceiros, os arrendatários que trabalhavam por empreitadas e os assalariados, explica Silva (2017).
4De acordo com Silva (2017), as colônias eram o agrupamento de casas das famílias que trabalhavam nas lavouras. Esses agrupamentos localizavam-se em diferentes lugares da plantação e há diferentes distâncias da sede da fazenda na qual se localizava a casa do proprietário (“casa grande”), a casa de beneficiamento do café, o escritório, a serraria, o moinho e outras dependências necessárias ao beneficiamento do café.
5No período, era alta a taxa de fecundidade das mulheres, da mesma forma que a “mortalidade infantil em razão das condições precárias de higiene e da enorme incidência de doenças” (SILVA, 2017, p. 560).

Agradecemos à Nadir Ferreira Carraro pela entrevista concedida às autoras em 23 de fevereiro de 2021.

 
Referências

  • PRIORI, A. et al. A cafeicultura no Paraná. In: PRIORI, A. et al. História do Paraná: séculos XIX e XX [online]. Maringá: Eduem, 2012. p. 91-104. Disponível em: http://books.scielo.org.
  • REVISTA DO CAFÉ. A obra expressiva do Sr. Joaquim Ferreira Leite no Norte do Paraná. Revista do Café, 1952, p. 168-172.
  • SILVA, Maria Aparecida Moraes. De colona à boia-fria. In: PRIORE, Mari Del; PINSKY, Carla Bassanezi (org.). História das mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.

 

Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

 
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