Ressaca Cultural: Conflitos humanos, relações e uma guerra civil como pano de fundo

Meio Sol Amarelo é uma aula de história e política, escrita por Chimamanda Ngozi Adichie, uma das escritoras contemporâneas mais brilhantes e de mais destaque do mundo

Mariana Ramiro

Em meu texto anterior, defendi que devemos ler mais obras escritas por mulheres, então acho mais do que justo trazer nessa minha primeira resenha para o Curitiba de Graça a obra de uma escritora que já me conquistou, mas que continua a me surpreender e encantar a cada novo livro que leio: a Chimamanda Ngozi Adichie.

Ela é nigeriana, filha de um professor universitário e da primeira mulher a trabalhar como administradora na Universidade da Nigéria, em Nsukka. Não por acaso, portanto, suas obras costumam retratar esse ambiente intelectual e universitário do país africano.

Mas o primeiro romance da autora que li, Meio Sol Amarelo, vai muito além de nos contar sobre esse recorte da realidade do país. Na obra, somos apresentados a uma importante parte da história nigeriana, que é tão pouco conhecida e discutida por aqui: a Guerra Civil Nigeriana. Sendo muito honesta, eu nunca tinha ouvido falar ou lido sobre essa guerra nem sobre o Biafra antes de ler o livro. Confesso que uma das coisas que mais me encanta na literatura é poder aprender, então vou dividir um pouco do que aprendi sobre o Biafra e essa guerra, mas antes vamos mergulhar no enredo da obra.

No livro, acompanhamos uma família através do ponto de vista de três personagens diferentes: Olanna, Ugwu e Richard.

A Olanna pertence à alta sociedade nigeriana, teve acesso à educação no exterior, se formou em Londres e voltou ao seu país para trabalhar como professora universitária ao lado de seu companheiro, o também professor Odenigbo. Ele é um revolucionário, apaixonado por política, e recebe os amigos com frequência em sua casa para discutir o futuro do país.

O segundo narrador do livro é o Ugwu, um garoto pobre de aldeia, “criado” do casal de professores. O patrão o incentiva a estudar e ler livros e é pelo ponto de vista dele que acompanhamos também a casa de Olanna e Odenigbo e seus conflitos, além do crescimento e desenvolvimento do próprio garoto.

A última pessoa que nos narra a sua versão é o Richard, um jornalista e escritor inglês que se muda para a Nigéria e conhece a Kainene, irmã gêmea de Olanna, por quem ele vem a se apaixonar.

Admito que me preocupo quando vejo que um livro possui pontos de vista de diferentes personagens, pois nem sempre o autor ou autora é capaz de definir características próprias de cada um e fazer com que a mudança de ponto de vista seja crível. Às vezes parece que estamos lendo algo escrito sempre da mesma maneira. Mas isso, felizmente, não acontece aqui.

Mergulhamos na mente dessas três personagens, entendendo suas personalidades, pensamentos e motivações. E mesmo aqueles que não têm um ponto de vista próprio na obra, como a Kainene e o Odenigbo, são muito bem construídos, nos encantam e nos surpreendem a cada nova página.

Entendemos e acompanhamos os relacionamentos, as dinâmicas e as rotinas dessas personagens até que a situação no país começa a ficar cada vez mais complicada, devido à crescente tensão advinda do cenário político, de disputas entre grupos étnicos e perseguições. Quando a guerra eclode, a vida de todos é radicalmente afetada.

Com uma riqueza de detalhes, muitas vezes difíceis de digerir, aliada à sensibilidade, a Chimamanda nos apresenta as consequências de uma guerra civil para a população que se vê cada vez mais desamparada e desesperada. Ela retrata os dramas, os conflitos, a situação da mulher, a fome e a desesperança que pessoas em situações extremas acabam por encarar.

A história dessa família nigeriana e seu agregado inglês é escrita de maneira envolvente e forte, trazendo consigo também, além dos aprendizados sobre um dos acontecimentos mais marcantes da história recente do país, reflexões importantes sobre colonialismo, guerras e sobre as relações humanas. Não é à toa que o livro foi vencedor de prêmios e até transformado em filme. Meio Sol Amarelo é uma aula de história e política, escrita por uma das escritoras contemporâneas mais brilhantes e de mais destaque do mundo.

Entendendo um pouco da história nigeriana – Cenário da obra

Em 1960, a Nigéria se tornou independente da Inglaterra. O país era muito diverso, composto por centenas de grupos étnicos, sendo os principais os hauçás, os igbos e os iorubás, e cada um dominava uma região. Seis anos depois da independência, dois golpes aconteceram no país: no primeiro, os igbos, que eram os membros da elite nigeriana, tomaram o poder; no contragolpe, eles foram removidos do poder e, a partir de então, começaram a ser perseguidos.

A maioria igbo se concentrava na região sudeste do país e, portanto, os igbos do norte, que eram minoria em relação aos outros grupos étnicos da região, eram os mais perseguidos. Diante do massacre ao qual seu povo estava sendo submetido, os líderes do grupo declararam independência do resto do país e foi assim que nasceu a República do Biafra, em cuja bandeira havia o desenho de metade de um sol amarelo.

No entanto, a conquista dessa independência não aconteceu da maneira que eles gostariam. A região do Biafra era muito rica em petróleo, portanto o governo nigeriano não aceitou facilmente a cisão. Foi assim que começou, então, a sangrenta guerra pela independência do Biafra, que durou mais de três anos e, estima-se, resultou na morte de mais de um milhão de pessoas.

Esses acontecimentos são extremamente relevantes para o livro, pois esse é o pano de fundo da obra e também o que vai guiar os acontecimentos e os destinos dos personagens a partir de um certo ponto da história.


Mariana Ramiro é uma profissional de marketing apaixonada por livros desde que se conhece por gente. Ela também é dona do canal Ressaca Cultural, no YouTube, onde compartilha experiências literárias e cinematográficas e você pode acessar AQUI.

 

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