É ou não é? Eis a questão!

O controverso Dia da Escola de Samba

 

Carlos Mariano Filho

Dia 11 de abril foi a data escolhida para se comemorar a existência de uma instituição, que se tornou a nossa identidade cultural aqui e no exterior. Estamos falando das nossas queridas escolas de samba. Mas a escolha, dessa data para celebrar a presença das escolas de samba em nossa sociedade, parece-me não contar muito com certa coerência dos fatos históricos do mundo do samba, senão vejamos: 11 de abril teria sido escolhido como dia da escola de samba pelo fato de nessa data ter sido criado um bloco carnavalesco de nome “Ouro Sobre Azul” pelo Paulo da Portela, um dos maiores nomes da história das escolas de samba. Esse bloco posteriormente passou a ser conhecido como “conjunto carnavalesco Oswaldo Cruz”, “Vai Como Pode” e finalmente se transformou na conhecidíssima Portela, maior vencedora do carnaval carioca e uma das mais tradicionais e conhecidas escolas de samba do Brasil.

Só que esse fato histórico escolhido para ser a data de celebração da história das escolas de samba, traz consigo dois problemas. O primeiro é que nomeando a data de fundação do “Ouro sobre Azul” como “O Dia da Escola de Samba”, passa-se a impressão de que essa agremiação e consequentemente a Portela, herdeira desse bloco, seriam as primeiras escolas de samba criadas no Brasil, quando, todo o mundo do samba sabe, que a primeira agremiação carnavalesca a adotar o termo escola de samba foi a “Deixa Falar” do bairro do Estácio, cujo o nome hoje é Estácio de Sá. O segundo problema que vejo nessa data escolhida é que nos relatos oficiais sobre a história portelense, sequer existe a citação dessa tal agremiação “Ouro Sobre Azul”, que teria dado origem à Azul e Branco de Oswaldo Cruz.

No clássico “Escola de Samba – Árvore que esqueceu a raiz”, da dupla Candeia e Isnard, os quatros blocos que antecederam a formação e criação da G.R.E.S Portela foram “As Baianinhas de Oswaldo Cruz”, “Conjunto Oswaldo Cruz”, “Quem nos Faz é o Capricho” e a “Vai Como Pode”. Portanto, não consta nenhuma agremiação com o nome de “Ouro sobre Azul” em sua história oficial. O renomado historiador Luiz Antônio Simas, em seu livro “Tantas páginas belas – histórias da Portela”, da Coleção Cadernos do Samba, ao narrar as origens portelenses, também confirma a mesma versão da dupla Candeia e Isnard. Assim, essa data do dia 11 de abril com o dia da escola de samba me perece meio fora de propósito. Deve ser por isso que ela não é muito lembrada, nem mesmo pelos sambistas e componentes das próprias escolas de samba.

Apesar dessa controversa histórica na data do dia da escola de samba, estamos aqui para lembrá-la e afirmar que é importante sim, para a instituição cultural que mais representa o que é ser brasileiro que se tenha uma data que se destaque e ressalte a importância da escola de samba para a cultura negra brasileira.

Sugerimos, com este artigo, que se mude a data do dia da escola de samba para dia 12 de agosto. Data da criação dessa sim, a primeira escola de samba do Brasil, a “Deixa Falar” – bloco carnavalesco criado por Ismael Silva e os bambas do bairro do Estácio, em 12 de agosto de 1928. O “Deixa Falar” foi a primeira agremiação carnavalesca a receber o nome de escola de samba. Isto porque, os sambistas do Estácio eram considerados professores do samba novo inventado por eles. O genial Ismael Silva em entrevista ao pesquisador Sergio Cabral, no conhecido livro “Escolas de Samba do Rio de Janeiro” explica que o samba maxixado que se tocava antes do samba da galera do Estácio, era travado, não dava para caminhar e dançar ao mesmo tempo. Foi aí que a malandragem inventou o samba de sambar do Estácio, que passou a ser a novidade trazida pelas escolas de samba, que a diferenciava das outras agremiações carnavalescas como os ranchos e grandes sociedades.

Por tudo isso, é mais coerente com a própria história das nossas queridas escolas de samba que 12 de agosto seja a data oficial.

Contudo, para quem gosta da cultura do carnaval, de samba e de escola de samba todo dia é dia para comemorar e reverenciar essa que é a maior identidade da nossa cultura.

 

Bibliografia

  • Cabral, Sérgio. Escolas de samba do Rio de Janeiro. 2011 – Lazuli Editora SP
  • Simas, Luiz. Tantas belas páginas – histórias da Portela. 2012 Verso Brasil Editora RJ
  • Candeia/Isnard. Escolas de samba: A árvore que esqueceu a raiz. 1978 SEEC RJ

 


Carlos Mariano Filho, mais conhecido por professor Mariano, é historiador, professor de História, Sociologia e Filosofia da Rede Pública do Rio de Janeiro. Pesquisador de escola de samba desde 2000, sua primeira lembrança de encantamento do carnaval foi, ao ver na casa da sua tia Ana (uma espécie de camarim de desfile de carnaval), o ritual de preparação das baianas da Vila Isabel, com suas saias rodadas, miçangas e devoção à arte de rodar

 


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