Nova HQ de José Aguiar faz uma homenagem crítica a Curitiba por meio de personagens históricos

Em entrevista, o premiado quadrinista curitibano revela algumas de suas inspirações para a história de “CWB”

Por Camile Triska

Quando alguém fala em história em quadrinhos, muitas pessoas já imaginam uma aventura de super-heróis ou personagens infantis voltados a um público mais novo ou mais nerd. Mas, os quadrinhos, ou HQs, vão muito além disso.

Gaveta do Diabo, Chioco Fumaça, Palhaço Zequinha… personagens mais conhecidos entre os curitibanos mais velhos fazem parte de uma nova HQ lançada pelo quadrinista curitibano José Aguiar. “CWB” traz uma homenagem à capital paranaense em formato de quadrinhos, fazendo um resgate de pessoas e lugares que ajudaram (e influenciam ainda hoje) a construir uma identidade da cidade.

“Eu gosto muito de Curitiba, mas sou muito crítico a ela também. Então sempre quis fazer uma história ambientada nela que não fosse lugar comum. Que não fosse uma mera exaltação ufanista de seus pontos turísticos. Curitiba é mais do que clichês. É um lugar que, acredito, precisa refletir melhor sobre si”, afirma ele.

Segundo o quadrinista, que coleciona prêmios, como Troféus HQMIX e Angelo Agostini, os maiores prêmios da área de quadrinhos, LeBlanc e Minuano de Literatura, além de ter sido finalista por três vezes do Prêmio Jabuti, conta que “CWB” foi o seu maior trabalho e é uma jornada pessoal, pois mesmo não sendo ele um personagem, é baseada em suas vivências.

Com 120 páginas e ilustrações em aquarela, a HQ “CWB”, publicada com tiragem limitada somente em versão impressa, ainda traz textos complementares, que fazem um levantamento de fatos e personagens históricos apresentados.

Com incontáveis publicações, José Aguiar, que é arte-educador formado pela FAP e mestre pela UTFPR em Tecnologia e Sociedade, começou publicando tiras de humor quando ainda era adolescente e, inclusive, frequentou oficinas na Gibiteca, onde acabou se tornando professor durante uma década e ainda é convidado para ministrar cursos e oficinas.

“Dar aulas de quadrinhos sempre foi uma forma de me manter atuante no meio, pois o mercado nem sempre foi favorável para as HQs. Ajudar a fomentar novos artistas sempre me trouxe muita alegria. Inclusive alguns dos novos nomes de Curitiba em atividade hoje foram meus alunos, o que me deixa muito contente”, comenta ele, que ainda ministra aulas para alunos de escolas públicas e da periferia.

Ainda sem um lançamento oficial, cuja expectativa é que aconteça em dezembro, a HQ “CWB” está sendo vendida exclusivamente na Itiban Comic Shop, como uma forma de apoiar a única loja especializada em quadrinhos de Curitiba.

Em entrevista para o Curitiba de Graça, José Aguiar conta um pouco mais sobre sua inspiração para escrever e ilustrar a CWB, as dificuldades em se trabalhar com quadrinhos no Brasil. Embora a capital seja a sede da Bienal de Quadrinhos, que começou com a Gibicon, da qual o quadrinista foi um dos idealizadores, ainda está longe de atingir todo o potencial desse mercado, além da crescente falta de incentivo à cultura no Brasil, onde, segundo ele, não faltam artistas com qualidades que não se veem em outros grandes centros do mundo, mas falta um pouco de interesse dos leitores brasileiros.

A sua nova HQ, “CWB”, nos parece como uma homenagem à história e cultura da capital paranaense. Foi essa realmente sua intenção? Quando a HQ começou a ser criada?
Eu gosto muito de Curitiba, mas sou muito crítico a ela também. Então, sempre quis fazer uma história ambientada nela que não fosse lugar comum. Que não fosse uma mera exaltação ufanista de seus pontos turísticos. Curitiba é mais do que clichês. É um lugar que, acredito, precisa refletir melhor sobre si. Além disso, como pesquisador da linguagem, queria que fosse um livro fascinante não só para quem conhece Curitiba. Queria que fosse uma obra fascinante por si só. Foi um grande desafio combinar essas duas intenções, pois, a princípio, eu não sabia como resolver visualmente esse quebra-cabeças. O resultado foi meu livro mais experimental.

A sinopse descreve a HQ como uma viagem sensorial por uma Curitiba fantástica e difícil de entender, mas com um olhar crítico seu. Poderia falar um pouco mais sobre como é essa história?
Basicamente são duas histórias que se cruzam para formar uma trama maior. Um homem e uma mulher que saem de suas casas em dois pontos diferentes da cidade para se encontrar e no caminho se deparam com uma cidade sem pessoas, mas viva e repleta de perigos que estão ligadas a uma misteriosa maleta que conecta ambos.

Você traz pessoas e personagens curitibanos que fazem parte de lendas e histórias reais da cidade. Por que utilizar esses personagens e não criar novos?
Porque esses personagens reais ou fictícios são a essência da cidade. São essas pessoas que fazem dela um lugar fascinante, bom ou ruim. E nossa falta de consciência de sua importância, de como sua existência afeta nosso presente, é algo que quis evidenciar. Olhamos fascinados para fora, mas esquecemos do quanto ignoramos quem está ao nosso lado ou quem construiu um caminho que nos tornou viáveis hoje. Por isso, para mim foi importante como artista resgatar, por exemplo, personagens esquecidos dos periódicos e quadrinhos curitibanos. Uma tradição centenária que poucos pesquisadores conhecem. Gaveta do Diabo? Chico Fumaça? Certamente os mais velhos se lembram do Zequinha. Para a maioria das pessoas é memória perdida no tempo, infelizmente.

Poderia revelar alguns dos lugares por onde os personagens passam? Por que apresentar esses locais?
Eu escolhi os locais a partir de minhas vivências. O livro é uma jornada pessoal, mesmo eu não sendo personagem. Do bairro Capão da Imbuia onde cresci, passando pela Avenida Victor Ferreira do Amaral até o centro, visito vários cenários e monumentos que têm algum significado para mim, ou cuja história me fascinou durante o processo de pesquisa para realizar o livro. Os textos que complementam a edição dissecam esse levantamento histórico e a importância pessoal dessas escolhas. Mesmo assim, muita coisa ficou de fora.

Ilustrações da “CWB”

Em uma época que cada vez mais vemos publicações de e-books, por que lançar uma obra impressa?
Porque este livro foi concebido como uma forma de leitura possível somente com um objeto tridimensional em mãos. Ou seja, o bom e velho livro de papel. Faz parte da experiência decifrar a leitura, pois a história pode ser lida tanto no sentido ocidental, como no sentido oriental, como nos mangás. E a diagramação das páginas cria interferências que só a virada de página permite apreciar do modo correto. Como disse, é meu trabalho mais experimental.

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Ainda não aconteceu um lançamento oficial. Existe alguma previsão de isso acontecer, virtualmente ou presencialmente, neste ano ou no próximo?
Farei um evento virtual antes do fim do ano em parceria com a Gibiteca. É importante para mim que as pessoas leiam o livro antes. O normal é autografar e as pessoas lerem em casa. Desta vez quero poder debater o livro com os leitores. Avisarei aqui tão logo marcarmos.

Agora falando sobre o mercado de quadrinhos em Curitiba. Temos ótimas produções aqui, a Bienal de Quadrinhos, que começou como Gibicon e, inclusive, você foi um dos cocriadores. O mercado de HQs da capital paranaense é um lugar consolidado no Brasil ou ainda estamos caminhando para isso?
Ter sido um dos idealizadores da Gibicon em 2011 e com ela confirmar a demanda cultural de Curitiba pela cultura dos quadrinhos foi um momento muito importante para mim. Saber que ela ramificou e gerou uma cena mais forte do que tínhamos dez anos atrás é uma das realizações que mais valorizo, pois foi uma obra coletiva e espontânea. Mas em Curitiba ainda não temos editoras de quadrinhos. Temos a Gibiteca, como coração centralizador da linguagem, mas ou publicamos fora, seja na internet ou através de editoras de outras capitais, ou fazemos tudo de forma independente. Eu mesmo tenho meu selo independente, Quadrinhofilia, pelo qual lanço meus trabalhos. Nós ainda só arranhamos o potencial desse mercado.

O que falta para o mercado brasileiro de HQs se fortalecer mais no cenário internacional?
Investimento em cultura é algo que tem caído absurdamente nos Brasil dos últimos anos. Infelizmente, muito do que vemos acontecendo hoje é consequência de projetos fomentados anos atrás. O que é muito preocupante, pois um país sem cultura é um país sem conteúdo, sem ter o que dizer e facilmente domesticável. Então, neste momento de pandemia, logo após a falência das grandes livrarias, o mercado editorial retraiu com nunca. Em compensação, temos uma geração muito mais proativa, que fomenta seus quadrinhos via crowdfunding, pequenas editoras independentes e algumas editoras de médio e grande porte que investem em novos quadrinhos – em menor proporção do que a desejável, mas é uma cena ativa e combativa. Também, como nunca antes, temos grandes roteiristas e não somente desenhistas de qualidade. Cada vez mais temos artistas mulheres, negros e diversidade de gênero dando voz aos quadrinhos brasileiros, com formas e riqueza de mensagens como não se vê nos grandes centros consumidores de quadrinhos no mundo. O que não nos falta é coragem ou qualidade. Faltam-nos mesmo são leitores que comprem nossos quadrinhos antes de comprar Marvel e DC. Esse retorno é o que nos dá condições de continuar trabalhando para fazer vozes serem ouvidas aqui e fora do Brasil.

Para conhecer mais sobre a obra de José Aguiar, você encontra suas publicações nos sites da Itiban Comic Shop e também da Zarabatana Books. Na Amazon, é possível adquirir o e-book de “A Infância do Brasil”, que também tem versão comentada com webcomic no site www.ainfanciadobrasil.com.br. E quem gosta da ambientação curitibana, não pode deixar de ler gratuitamente “Malu Cotidiano Alterado” em www.maluca.com.br. Mais informações no Facebook, Instagram e Twitter do Quadrinhofilia.

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