Nelson, Domingos, Luiz e Amadeu: o mundo do samba perde quatro grandes referências do nosso Carnaval

Essas quatro personalidades do mundo do samba ajudaram a escrever a história das escolas, dos seus desfiles e são referências históricas do nosso Carnaval

Carlos Mariano Filho
Em menos de um mês, o mundo do samba perdeu quatro grandes referências do carnaval brasileiro. No último dia 27 de maio nos deixou o grande baluarte Nelson Mattos, conhecido entre os bambas com a patente de Nelson Sargento. Dois dias depois, no dia 30 de maio, nos deixou Domingos da Costa Ferreira, o nosso eterno Dominguinhos do Estácio. E no último dia 18, perdemos, de uma vez só, o lendário Luiz Fernando Ribeiro do Carmo, o grande Laíla, e Amadeu Amaral, o inesquecível Mestre Mug, da minha querida Vila Isabel.
Essas quatro personalidades do mundo do samba ajudaram a escrever a história das escolas, dos seus desfiles e são referências históricas do nosso Carnaval. Nelson Sargento era o mais longevo dos quatro e representava experiência de vida do Carnaval antigo, aquele que nasceu com a Deixa Falar, em 1928, com seu “paticumbumprugurundum” e fez o samba de sambar negro da malandragem de navalha do Estácio tornar-se a música principal dessa festa brasileira.
Nelson era uma espécie de museu ambulante, pois vivenciou e participou dos momentos mais marcantes da história das nossas escolas de samba. Da sua origem, como organização comunitária negra das favelas cariocas marginalizadas, sua afirmação como identidade nacional do povo brasileiro e, finalmente, sua transformação como produto da chamada indústria cultural.
Nelson saiu incólume de todas as essas transformações como sambista negro do seu tempo. Nunca deixou de se posicionar como compositor popular, sobre sua visão em relação aos caminhos traçados e percorridos pelos sambistas ao longo de suas trajetórias. Foi assim que Sargento, fazendo uso de sua patente, filosofou em uma das suas mais emblemáticas canções: “o samba agoniza, mas não morre”. Uma bela poesia musical que ressalta a preocupação do poeta com os caminhos e passos percorridos pelo samba até aquele momento da criação de sua poesia.
Apesar das controvérsias do samba, Sargento se mostrou resistente e acreditava que esse seu velho companheiro sempre irá ser amigo de todos e todas, contudo manterá sua essência negra viva e, assim, nunca morrerá, mesmo que alguns malandros se deslumbrem com as luzes do espetáculo e se desvirtuem, atravessando em certos momentos o samba na avenida.
Ao falar de Nelson, vem logo em nossa mente a Estação Primeira de Mangueira – escola do coração do nosso sambista. Porém, Sargento começou sua história no mundo do samba desfilando como folião e tocando tamborim na escola de samba Azul e Branco do morro do Salgueiro – escola que se juntou com outra agremiação que tinha no morro, a “Depois eu Digo” e formaram o Acadêmicos do Salgueiro, em 1953, também conhecida como Academia do Samba.
Como jovem negro morador da então capital Federal da República, o Rio de Janeiro, Nelson viveu a insegurança e o medo de não ter uma casa para morar na Primeira República, foi assim que ele e sua família foram parar no morro do Salgueiro, ainda na sua infância. Contudo, quis o destino Verde e Rosa que Nelson, em virtude do falecimento do seu pai materno, ainda adolescente fosse com sua mãe, seus irmãos e, agora também, com o seu padrasto morar no morro da Mangueira. Aliás, o padrasto de Sargento foi muito influente nessa importante e decisiva mudança em sua vida. O português Alfredo Lourenço, novo companheiro de sua mãe, será também futuramente parceiro dele na ala de compositores da Estação Primeira.

Um dos muitos quadros pintados por Nelson Sargento, que também mostrou seu talento nas artes plásticas. Foto: Reprodução/Facebook

Em parceria, fizeram dois clássicos do samba enredo “lençol”, como ficaram conhecidos esses sambas, da época, devido à característica estética, com letras extensas e que privilegiam a trajetória dos vultos históricos, detalhando datas e veracidade dos fatos. Em 1949, a parceria fez “Apologia aos Mestres” – homenagem a quatro grandes nomes da nossa história: Oswaldo Cruz, Ruy Barbosa, Ana Neri e Miguel Costa. No ano seguinte, a dupla Sargento/Português fez outro samba lençol: “Plano Salte – saúde, lavoura, transporte e educação”. Com ambos, a Verde e Rosa foi campeã do carnaval carioca.
Mas, Nelson não se limitou seu talento. Apenas sendo um grande e magistral poeta musical, foi também pintor e ator. Na pintura, seguiu os passos de outro ilustre sambista, que também passou pela Estação Primeira, o lendário Heitor dos Prazeres.
Sargento mostrou seu talento nas artes plásticas criando belas paisagens com seus quadros. Em 2016, expôs seu acervo no espaço “Favela do Rock”, no Rock in Rio, vencendo assim às barreiras do racismo e afirmando a narrativa do negro livre e construtor da cultura nacional. Sargento foi, sem dúvida, um grande bamba, símbolo de luta e resistência da cultura e poética negra, algo tão necessário numa sociedade complexa e contraditória como a brasileira.
Dois dias depois do passamento do querido Nelson, o samba perdeu mais um grande baluarte: Dominguinhos do Estácio. Tive a honra, em 2006, ao lado dos meus amigos Luís Eugênio, jornalista, e Jorge Renato, pesquisador, entrevistar Dominguinhos para o site Cadência da Bateria. Dentre muitas coisas importantes e interessantes que o cria do Estácio falou para nós, está uma passagem emblemática ocorrida no início da sua trajetória como canário da Imperatriz Leopoldinense, na década de 1980. Na época, estavam para escolher o samba da Imperatriz para o carnaval de 1980, cujo o enredo escrito pelo virtuoso carnavalesco Arlindo Rodrigues era “O Que é Que a Bahia tem”. Dominguinhos contou que, antes mesmo de Arlindo soltar a sinopse do enredo, veio na mente do compositor os versos que comporia o maravilhoso samba da “Rainha de Ramos”:

“Reluzente como a luz do dia
Bela e formosa como as ondas do mar
Encantadora e feliz
Chega a Imperatriz
Fazendo o meu povo vibrar”

Dominguinhos explicou que quando estava numa reunião na instituição responsável na época pela organização do carnaval carioca, ficou sabendo no sorteio que Imperatriz seria a última escola dentre as dez do antigo grupo 1A a desfilar na avenida no domingo de carnaval. Portanto, sabendo disso, o poeta nascido no morro do São Carlos não perdeu tempo e logo lançou mão da caneta e criou esses lindos versos que, ainda, não tinham nada a ver com o enredo, pois ele nem existia. Mas, prestariam a ele perfeitamente. Depois de lida a sinopse, o samba ficou pronto, contendo a passagem poética criada por Dominguinhos, em parceria com o seu grande amigo Darci Nascimento.

Dominguinhos era um cantor que sabia puxar uma escola na avenida como ninguém. Foto: Ricardo Almeida/Negrices Produção

Ainda sobre esse samba de 1980, Dominguinhos disse que ele era inovador para os padrões da ala de compositores da escola da época. Isso porque se tinha a tradição de se fazer sambas em tom menor e, nesse samba, Dominguinhos e Darci mesclam tons menores com maiores, dando um estilo eclético e bem interessante que impulsionou a escola de Ramos a fazer um belo desfile na avenida, principalmente no quesito harmonia. A Imperatriz, em 1980, dividiu o primeiro lugar do carnaval carioca com a Portela e a Beija Flor de Nilópolis.
Dominguinhos era um cantor que sabia puxar uma escola na avenida como ninguém, mas fazia isso com classe e solenidade ímpares. Reza a lenda também que Dominguinhos, além de ser brilhante puxador de escola de samba, foi pé quente na pista. Nas suas passagens por Estácio de Sá, Imperatriz Leopoldinense e Unidos do Viradouro, o cantor e compositor foi o principal puxador dessas escolas quando elas ganharam seus primeiros títulos de campeãs do carnaval carioca. O bamba do Estácio vai deixar muita saudade.
Nem estávamos refeitos das perdas de Sargento e Dominguinhos, eis que na última sexta-feira, dia 18 de junho, perdemos dois grandes ícones do carnaval. O craque das pistas Laíla e o Mestre Mug, da minha amada Unidos de Vila Isabel.
Laíla, cria do Salgueiro, é, ao lado de Fernando Pamplona e Joãosinho Trinta, um dos nomes mais emblemáticos do Carnaval moderno, que, a meu ver, começa em 1960 com o desfilaço da Academia Quilombo dos Palmares. Ali se inicia a chamada revolução Salgueirense liderada primeiramente por Pamplona e aprofundada esteticamente por João Trinta.
Laíla participa dessa revolução estética que transforma a escola de samba num produto da indústria cultural de exportação através da sonoridade. Ele começa sua importante trajetória no mundo do samba como percussionista da bateria salgueirense. Depois, a partir de 1968 assume a direção de harmonia da Vermelha e Branco da Tijuca. Assim, começa a mostrar que será o grande mestre da pista na arte de conduzir uma escola para fazer um desfile quase perfeito aos olhos dos jurados e conquistar o título de campeão do carnaval.
Laíla, um dos nomes mais emblemáticos do Carnaval moderno. Foto: Reprodução

Quando sai da Salgueiro e vem junto com João Trinta para a, então desconhecida, Beija Flor de Nilópolis trabalhar com o bicheiro Anísio Abrahão David, patrono da escola, é que Laíla vai solidificar sua hegemonia com um dos maiores diretores do carnaval moderno. A dupla faz outra revolução no mundo das escolas de samba: transformam os desfiles da passarela do samba num hipódromo, não de corrida de cavalos, mas de toda a bicharada. Ali, só os mais fortes, bem treinados e com estratégia vencerão a corrida do desfile na pista.
A conhecida família Beija Flor, termo criado pela opinião pública para caracterizar a simbiose de sucesso entre Laíla, a comunidade nilopolitana e o mecenato do jogo do bicho, que se refletia no desfile da Deusa da passarela, foi muito fruto da obsessão do trabalho desse líder no comando dos quesitos de chão, aqueles responsáveis pelo desempenho da escola na pista de desfile: Harmonia, Evolução e o extinto quesito Conjunto. Com seu semblante fechado, mas com ótima capacidade de liderar os foliões nos ensaios e no desfile principal, Laíla mostrou várias vezes sua competência e esmero na condução de vários títulos da Beija Flor, principalmente na era 2000.
Fui testemunha ocular dessa capacidade gestora de Laíla, no carnaval de 2007, quando fui comentarista dos desfiles do grupo especial daquele ano da equipe do jornalista Miro Ribeiro na rádio Roquete Pinto. A Beija Flor naquele ano veio com um grande enredo: “Áfricas – do berço real à corte brasileira”. Foi a sétima e última escola a entrar na Sapucaí, isso já ao amanhecer. Antes do toque da sirene autorizando o início do majestoso desfile, que tinha como sua cereja do bolo um lindo samba-enredo – disparado o melhor da safra daquele ano, Laíla já estava lá, à frente da escola com seu guia de Xangô no peito, fisionomia sisuda, tensa e atenta a todos os segmentos da escola. Como se tivesse a frente de um exército preparadíssimo para ganhar a guerra, ele também transparecia para todos, que estavam ali na passarela Darcy Ribeiro, que faria uma exibição de gala. Era difícil de encontrar entre todas as competidoras uma escola que tivesse se preparado tanto para estar ali. Obedecendo à risca as ordens do mestre, a Azul e Branco de Nilópolis fez um desfilaço e ganhou com folga aquele carnaval. Laíla, atento a tudo e a todos, ainda corrigiu na minha frente, antes do começo do desfile, um buraquinho no pé de uma das fantasias de girafa que compunha o esplendoroso abre alas da escola.
Com seu falecimento, Laíla não só deixa um legado para o desfile das escolas de samba, mas também demarca uma era do carnaval carioca, época em que a obsessão por uma gerência competente de uma escola de samba, objetivando sempre a hegemonia do carnaval, vale tanto quanto o samba no pé.
Na mesma sexta-feira que perdemos Laíla, nós, torcedores da Vila Isabel, choramos e lamentamos a morte de Amadeu Amaral, o mestre Mug – um dos maiores mestres de bateria da história do carnaval carioca, que comandou por trinta anos a orquestra de percussão da galera do Morro dos Macacos.
Mug, um dos maiores mestres de bateria da história do carnaval carioca. Foto: Reprodução

A passagem mais marcante de Mug à frente da bateria da minha Vila foi, sem dúvida nenhuma, sua performance no inesquecível desfile de 1988: ‘’Kizomba, a Festa da Raça”, enredo idealizado e pensado pelo magnífico Martinho da Vila, que, com o apito, comandou uma exibição fantástica da Vila na avenida. Com cuícas, ganzás, caixas altas e médias, tamborins e surdos de contra tempo, Mug conduziu com muita presteza e elegância o ritmo cadenciado do inesquecível samba-enredo de autoria dos geniais Luís Carlos da Vila, Jonas e Rodolpho de Souza. Essa exibição fantástica da bateria da Vila, aliada ao canto da escola, liderado pela direção impecável de harmonia de Jaiminho da Vila, lhe rendeu o apelido de bateria suingueira e à escola de Noel o primeiro título de campeã do carnaval carioca.
Com sua passagem, Mug entra para o panteão eterno dos grandes vultos da Vila, como Noel, Seu China e Paulo Brazão.
A perda quase simultânea dessas quatro referências e excelências da história do nosso Carnaval nos faz refletir como é importante o trabalho de pesquisa e preservação da memória das nossas escolas de samba, para que possamos mostrar para as futuras gerações como é rica e diversificada a história da cultura popular.
Vão os homens, ficam os deuses do Carnaval.
Bibliografia

  • Motta, Aydano André. “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija Flor. Rio de Janeiro. Verso Brasil Editora, 2012.
  • Bruno, Leonardo. “Explode, Coração – Histórias do Salgueiro”. Rio de Janeiro.
    Verso Brasil Editora, 2013.
  • Periódicos. Reportagem do Segundo Caderno, Jornal o Globo 28/05/2021
    “Nelson Sargento: O Olimpo é Verde e Rosa”.

 

Carlos Mariano Filho, mais conhecido por professor Mariano, é historiador, professor de História, Sociologia e Filosofia da Rede Pública do Rio de Janeiro. Pesquisador de escola de samba desde 2000, sua primeira lembrança de encantamento do carnaval foi, ao ver na casa da sua tia Ana (uma espécie de camarim de desfile de carnaval), o ritual de preparação das baianas da Vila Isabel, com suas saias rodadas, miçangas e devoção à arte de rodar

 

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