Mulheres Paranaenses: Maria Nicolas, a pesquisadora da “alma das ruas”

Durante sua vida, Maria Nicolas exerceu inúmeras atividades, mas uma de suas obras mais marcantes foi a série de livros denominada “Almas das Ruas”

Por Alexandra F. M. Ribeiro e Alboni. M. D. P. Vieira
Maria Nicolas nasceu no dia 10 de setembro de 1899, em Curitiba, filha de Alyr Léon Nicolas e de Josefa Nicolas. O pai, imigrante francês, durante muitos anos foi o responsável pela manutenção do antigo Teatro Guayra, local em que, certamente Maria se inspirou, assistindo peças e recitais que, mais tarde, reproduzia com seus alunos. Começou a lecionar aos 13 anos e, em 1916, aos 17 anos, formou-se professora alfabetizadora.
O jornalista José Carlos Fernandes nos conta: “Ensinou pencas de gente. Tudo isso não passaria de memórias de uma moça bem comportada, não fosse Maria Nicolas pobre, negra, espírita, separada … e boa de briga” (FERNANDES, 2014).
Além da profissão docente, desempenhou inúmeras atividades. Foi escritora, poetisa, historiadora, contista, dramaturga, teatróloga, novelista, biógrafa, pesquisadora e pintora, demonstrando, em tudo que fazia, competência ímpar. Um aspecto, porém, se destacava em sua personalidade: ela amava o Paraná e, em especial, sua terra natal, Curitiba.
Em 1936, editou o livro “Porque me orgulho de minha gente…”, o qual dedicou aos seus professores Elisa França Bittencourt, Fernando Moreira, Rita Estrella Moreira e Anna Marques Guimarães, aos quais, segundo ela, “devo tudo que sou”. Homenageou, também, sua mestra Júlia Wanderley Petriche, que foi a primeira mulher a receber, em 1892, o diploma de professora normalista no Paraná. Essa obra foi escrita com o propósito de oferecer lições de civismo, suplementares, aos alunos da escola primária. Argumentava a professora Maria Nicolas que sempre havia lutado com dificuldade, em suas aulas, no que se referia às lições de civismo e, dessa forma, decidira reunir traços biográficos de brasileiros que se tornariam conhecidos dos estudantes. Iniciando com o texto “A bandeira da minha terra”, continuava com estudos biográficos de Ruy Barbosa, Elvira Faria Paraná, Marechal Floriano Peixoto, Visconde de Taunay, Antonio da Silva Jardim e tantos outros. Após a biografia, era apresentado um texto ou um poema de autoria do biografado (NICOLAS, 1936).
Contudo, o que mais marcou a atuação de Maria Nicolas foi a série de livros denominada “Almas das Ruas”, editada a partir de 1977, trazendo um “modesto apanhado dos logradouros públicos da cidade de Curitiba” (NICOLAS, 1977, p. 1). Alamedas, avenidas, largos, jardins, praças, travessas e ruas de Curitiba tiveram sua “alma” revelada. Quem teria sido Jesuíno Marcondes, que empresta seu nome a uma travessa, no centro da cidade? E Anna Bertha Roskamp, que nomeia uma rua no Jardim das Américas? E Carlos Dietzsch, no bairro do Portão? E sobre essa rua do Boqueirão, denominada Professor José Maurício Higgins, há alguma informação? Quem foi Paul Harris, que denomina esse jardim no Juvevê? São centenas de pessoas pesquisadas por Maria Nicolas, reunidas nos três volumes de “Almas das Ruas” de Curitiba, propiciando-nos o mais completo inventário urbano da cidade.
Essa paixão que Maria Nicolas possuía pelas ruas nos remete ao trabalho de João do Rio (1881-1921), “Alma Encantadora das Ruas”, que reúne crônicas escritas entre 1904 e 1907, e que traz o resultado de pesquisas sobre as ruas do Rio de Janeiro: Rua do Ouvidor, Rua da Misericórdia, Rua do Ourives, Rua do Sacramento, Largo do Capim… e por aí vai.
Ele, João do Rio, declara, logo no início de sua obra “Eu amo a rua” (RIO, 1995, p. 1).
E, adiante, explica:

Oh! sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas , snobs, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pinga de sangue… (RIO, 1995, p. 7).

Maria Nicolas, como João do Rio, amava a rua. E tinha orgulho da gente que habitava o Paraná. O jornalista Aramis Millarch (1988) assim a descreve:

Aquela senhora de cabelos brancos, extraordinária energia, apanhando ônibus com sua bolsa repleta de anotações percorrendo não só a cidade mas também o Interior – e mesmo outros Estados – foi realmente uma Historiadora não acadêmica, a quem se deve milhares de biografias de pessoas que, embora perpetuadas em placas nas ruas da cidade, de nada se saberia se não fosse o seu esforço – raramente reconhecido (MILLARCH, 1988, s.p.).

E o advogado Hugo Vieira Filho, cuja família mantinha relações de amizade com Maria Nicolas, em entrevista nos contou que ela percorria a cidade, oferecendo seus livros aos amigos. Visitava-os em seus locais de trabalho, sempre com muita alegria e determinação. Era uma pessoa simples, humilde, cujos olhos brilhavam ao apresentar novos projetos de livros (VIEIRA FILHO, 2020).
Foram mais de 30 livros escritos, dentre as quais podemos ainda destacar “Cem Anos de Vida Parlamentar”, em 1954, quando era funcionária da Biblioteca da Assembleia. Por sua obra, recebeu vários prêmios e títulos.
Comenta Fernandes (2014) que Maria Nicolas

Fez tudo isso apenas com o que aprendeu no magistério. Faculdade, mesmo, só cursou quando beirava os 50 anos. Sua foto de formatura em Pedagogia na UFPR, em 1950, tem ares de esfinge: os cabelos brancos saltam da beca preta, testemunho de seu topete, e de seu peito. Escritora com tiques de atriz, brindava sempre com um jogo de cena.

Viveu sempre modestamente, com seus proventos de aposentadoria como professora primária. No dia 3 de junho de 1988, aos 88 anos, faleceu, na Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. Nesse mesmo ano, em sua homenagem, o Ginásio Estadual de Vila Izabel, em Curitiba, passou a denominar-se “Escola Estadual Professora Maria Nicolas” – Ensino de 1º Grau, hoje Ensino Fundamental (PARANÁ, 1988).
Por ocasião da morte da professora Maria Nicolas, Millarch (1988, p. 1) afirmou: “Curitiba perde a poeta, a escritora, a pintora, a professora. Perde mais: um pouco da sua História, de seu passado. Não há quem substitua dona Maria”.
Referências:


Alexandra F. M. Ribeiro é doutoranda e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais e Alboni. M. D. P. Vieira é doutora e mestre em Educação – Linha de Pesquisa História, Memória e Políticas Educacionais.

 

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