Finalistas Prêmio Jabuti: Entre capas, ilustrações e boas histórias

O ilustrador londrinense Willian Santiago e o diretor de arte curitibano Alceu Chiesorin Nunes concorrem por seus trabalhos de ilustrações

Por Camile Triska

Todo livro é uma forma de arte que vai além da escrita e a capa é o primeiro contato do leitor com a obra. Uma capa bem pensada, certamente, é um convite para ler o livro. Entre os finalistas paranaenses do Prêmio Jabuti 2020, estão dois profissionais que emprestam seu talento e dedicação para dar vida ao texto. É a identidade única e ilustrações, quando necessárias, que irão ajudar a contar bem uma história, independentemente se é para uma obra consagrada, como “Grande Sertão: Veredas”, para leitores experimentados, ou para leitores que começam a dar seus primeiros passos, com o livro infantil “Cumarim – A pimenta do reino”.

A brasilidade e a arte com arte é o destaque na capa de uma nova edição de “Grande Sertão: Veredas” (Editora Companhia das Letras), de João Guimarães Rosa, finalista do Prêmio Jabuti deste ano. Ela foi assinada pelo curitibano e diretor de arte da editora, Alceu Chiesorin Nunes.

O desenho reproduz os nomes de personagens e foi inspirada no bordado do avesso do Manto de apresentação do artista plástico brasileiro, já falecido, Arthur Bispo do Rosário. A sugestão de utilizar uma obra do artista surgiu em uma reunião preliminar com diretores da editora. “Lilia Schwarcz comentou que valeria a gente olhar para a produção do Bispo do Rosário, artista que tinha uma força ímpar numa vibração que dialogava com o livro, investigando mais a fundo acabei chegando ao verso do manto da Anunciação e a ideia foi substituir os nomes dos homenageados pelos personagens do livro”, contou o diretor de arte em entrevista para o Curitiba de Graça.

O design gráfico do livro ainda tem um trabalho original de Poty Lazzarotto nas orelhas do livro, usadas na primeira edição da obra, lançada há 64 anos. “Outro detalhe tirado das primeiras edições foi que percebi que a cada reimpressão do livro havia alguma diferença na capa, seja na cor ou na tipografia. Aproveitando que o novo projeto tinha o fator humano da variedade dos bordados artesanais, a cada reimpressão da Companhia usamos um bordado diferente para a capa, a diferença é sutil, mas aos leitores atentos e para a história da publicação fica mais este sabor”, revela Alceu Chiesorin Nunes.

Os primeiros exemplares vendidos foram uma edição de colecionador, com apenas 64 livros (número que marca da data de aniversário da obra), que tinha uma capa especial de tecido bordado. A ideia surgiu após Alceu ver o resultado de um modelo de bordado encomendado para Elisa Braga, ex-diretora da Companhia das Letras, que inicialmente seria feito apenas para deixar o desenho mais real.

Capa da edição de colecionador, que teve apenas 64 exemplares. Foto: Divulgação/Editora Companhia das Letras

Diversos grupos de bordadeiras realizaram o trabalho para a capa da edição limitada. Inicialmente, com as bordadeiras da Linha 9, um projeto do Instituto Acaia de São Paulo, que o diretor de arte acabou descobrindo também terem feito um bordado do manto para uma peça de teatro do Bispo do Rosário.

Grupos de bordadeiras de Minas Gerais também participaram do projeto, a pedido da família de Guimarães Roda após ver a ideia da capa. “Consegui o contato das bordadeiras de Cordisburgo, cidade onde nasceu o autor e tem o Museu Casa de Guimarães Rosa, Morro da Garça e Andrequicé cidades importantes da obra e circuito roseano via outro grupo de São Paulo, o Teia de Aranha que também são apaixonadas pela obra e aceitaram participar do projeto”, afirma Alceu, revelando ainda que ele mesmo acompanhou todo o trabalho pessoalmente, indo buscar os bordados em cada cidade.

Os exemplares dessa edição de colecionador ainda tiveram um outro acabamento de capa dura e a guarda do livro impressa em serigrafia em papel artesanal da Moinho Brasil, além de uma caixa especial feita em Buriti pela Central Veredas da cidade de Urucuia, no Grande Sertão, e a cinta presa por um botão artesanal desenhado pelo artista Marcelo Zocchio. “Este livro para colecionadores foi uma obra a parte e foi um grande sucesso. Apesar do preço alto, por ser um livro muito artesanal, esgotou-se rapidamente”, conta.

Cumarim – A pimenta do reino

O designer gráfico londrinense Willian Santiago é um dos finalistas, com as ilustrações do livro infantil “Cumarim – A pimenta do reino” (Editora FTD Educação), escrito por Rosane Almeida, que conta a história de uma menina curiosa instigada pelas diversas brincadeiras da cultura brasileira. Por meio da exploração de cores, formas, frutas, texturas, referências folclóricas e artesanato, Santiago criou ilustrações de forma digital, mas que simulam desenhos feito a lápis, giz de cera e tinta.

Uma das ilustrações do livro “Cumarim – A pimenta do Reino”. Foto: Divulgação

“O livro foi feito em parceria com diversos profissionais da editora FTD, tive muita liberdade em criar. Mas algo que queríamos é que o livro tivesse muita brasilidade”, revelou em entrevista exclusiva ao Curitiba de Graça. “Foram meses trabalhado no livro, muita rascunho, testes de cor. Mas no geral foi bem tranquilo, me identifiquei muito com a temática e a proposta da obra”, complementa.

Essa não é a primeira vez que o designer gráfico aparece na lista do Prêmio Jabuti. Em 2017, ele venceu na categoria Infantil Digital pelas ilustrações no livro “Kidsbook Itaú Criança” (Agência África), que ainda teve como ilustradores e/ou autores Antônio Prata, Marcelo Rubens Paiva, Alexandre Rampazo, Luis Fernando Veríssimo, Fernanda Takai, Ina Carolina, Adriana Carranca, Brunna Mancuso e Caio Bucaretchi.

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“Esse primeiro Jabuti que ganhei foi muito especial, ilustrei o primeiro conto infantil do escritor Luis Fernando Veríssimo”, relembra Willian, explicando as diferenças entre ilustrar um livro digital e um impresso. “A diferença maior é pensar na experiência do leitor. No digital há mais animações, efeitos sonoros. No Cumarim, que foi impresso, tem algumas brincadeiras que fizemos, como por exemplo, a página da brincadeira ‘passa anel’, em que a própria dobra do livro possibilitou escondermos o anel e dar um ar mais lúdico para a história. Sem contar os belos contrastes que o leitor vai ter ao passar pelas páginas”, detalha.

“Cumarim – A pimenta do reino” e “Grande Sertão: Veredas” estão à venda em diversas livrarias on-line brasileiras e nos sites das editoras.

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