Conheça a relação da história dos povos paranaenses com a árvore símbolo do estado

Araucárias foram determinantes para a sobrevivência dos povos originários, que ainda contribuíram para a disseminação da floresta

Redação com Aline Nunes, da UFPR

Considerada a árvore símbolo do Paraná, a Araucária hoje ocupa apenas cerca de 3% da extensão original de sua floresta. A espécie corre risco de extinção, de acordo com a União Internacional para Conservação da Natureza e com a Relação das Espécies Ameaçadas de Extinção no Paraná, do Instituto Água e Terra (IAT).

As araucárias e seus pinhões permitiram a ocupação humana intensa na região séculos antes da chegada dos colonizadores europeus. A relação entre homem, araucária e pinhão existe há quatro mil anos. A história começa com os povos originários e seus saberes ancestrais e continua a despeito do desmatamento agressivo, que ameaça de extinção a árvore mãe do pinhão.

“A araucária é uma porta de acesso, uma janela para o mundo de povos originários, com seus saberes, seus conhecimentos, seus modos de ser e existir. A araucária nos abre essa porta para encontrarmos um outro mundo, aqui no planalto sul. Através da araucária podemos pensar esse mundo indígena, esse mundo originário”, revela o professor Ricardo Cid Fernandes, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Paraná.

Os ancestrais dos povos Kaingang e Xokleng habitavam o planalto sul brasileiro há cerca de quatro mil anos. “Nos estados brasileiros do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tivemos o início de um período mais úmido começando por volta de quatro mil e quinhentos anos atrás”, observa o arqueólogo Sady Pereira do Carmo Júnior, do Museu de Arqueologia e Etonologia da UFPR (MAE).

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Os dados arqueológicos indicam que esse período de mudança ambiental, denominado Holoceno tardio, é associado a uma ocupação humana mais intensa nas terras altas do Brasil meridional, conforme é evidenciado pelo aumento dos sítios arqueológicos associados aos Proto-Jê (Tradição Taquara- Itararé), explica o arqueólogo. “Esse aumento de aldeias parece ser relacionado à exploração de um recurso recentemente disponível, abundante e rico: sementes de Araucária.”

As araucárias foram determinantes para a sobrevivência dos grupos. Em contrapartida, esses povos contribuíram para a disseminação da floresta pelo território que ocupavam. É o que revelam teorias construídas nos últimos 20 anos.

“Estudos arqueológicos mostram a relação direta desta população indígena com a distribuição de Mata de Araucária. A construção de paisagens ou a construção de florestas antropogênicas não é uma exclusividade dos índios do sul do Brasil. Sabe-se que em muitos lugares grupos indígenas, grupos originários, são construtores de paisagem. Isso se aplica à Amazônia, às paisagens do cerrado, mesmo áreas do litoral”, afirma o professor Ricardo Cid.

“Apesar do aumento da umidade ter favorecido uma dispersão das araucárias, sabemos que Araucaria angustifolia necessita de um agente dispersor, sejam aves, animais ou as populações humanas. A contribuição da ação dos grupos da tradição Taquara-Itararé na dispersão da espécie, pode ser relacionada pela coleta do pinhão, manejo e o possível plantio da espécie”, corrobora o arqueólogo Sady Pereira do Carmo Júnior.

Simbologias da Araucária

A relação dos povos indígenas da família Jê com as araucárias não é apenas ecológica. No plano simbólico, a araucária, o fãg, está no centro da vida ritual e cerimonial kaingang. A relação terrena e mágica com a árvore é concretizada no Ritual do Kiki, realizado tradicionalmente na época da colheita do pinhão. O ritual foi registrado por antropólogos nos séculos XIX e XX.

Estudos arqueológicos mostram a relação direta desta população indígena com a distribuição de Mata de Araucária. Foto: Crizgabi/Pixabay

O Kiki era um ritual de culto aos mortos. Uma araucária era selecionada pelos rezadores, que pediam autorização para o corte. A árvore no chão era cavada para se transformar em um cocho, que era preenchido com mel e água. Durante um ou dois meses o grupo permanecia naquele local, aguardando a fermentação do hidromel.

“Enquanto isso acontece, eles fazem rezas, cantos e se distribuem ao redor de fogueiras feitas com o nó de pinho. Eles fazem pinturas corporais a partir do carvão gerado na cinza do nó de pinho. São repetidas ações que demonstram essa conexão íntima entre o kaingang, o seu culto aos mortos e esse objeto: a araucária. Esse pinheiro, além de servir de cocho, de servir para fazer fogueira e carvão, tem uma propriedade especial que contém as duas metades que formam a sociedade kaingang”, ensina o professor Ricardo.

Atualmente o Kiki é realizado apenas na região de Chapecó, em Santa Catarina, preservando e revisitando traços característicos do ritual ancestral.

Kaimé e Kairu

O povo kaingang concebe o mundo dividido a partir de dois heróis mitológicos: Kamé e Kairu. O dualismo é uma característica de muitas sociedades, mas por aqui – estranhamente – conhece-se mais o dualismo yin e yang da filosofia chinesa do que a força de Kamé e Kairu dos povos originários. A araucária é o ser que tem a propriedade de fundir essas duas dimensões da existência, com papel central na vida ritual.

“A araucária, neste mundo indígena é um centro da vida ritual extremamente importante. Talvez como o baobá é para os povos africanos. O carvalho para os europeus, a Samaúma para os povos da Amazônia. A gente tem a araucária como um centro da vida ritual dos povos indígenas caingangues no sul do Brasil”, afirma o professor Ricardo Cid.

Destruição e salvação

Se por um lado os povos ancestrais adensaram a Floresta de Araucária, por outro o colonizador europeu e os homens modernos e contemporâneos contribuíram para a sua quase destruição. De acordo com o professor Ricardo Cid, “no começo do século XX o Governo Estadual do Paraná demarcou várias terras indígenas. Já nos anos 50, 60 e 70 foi implantado o regime das serrarias no interior delas. As araucárias sofreram enormemente. Foram cortadas milhares de araucárias das terras indígenas. Em Chapecó, a contabilidade do Sistema de Proteção ao Índio (SPI) deu conta de 80 mil pinheiros extraídos daquela terra. A araucária foi alvo da indústria madeireira ilegal que se estabeleceu no interior das terras indígenas”.

O professor sênior do Departamento de Fitotecnia e Fitossanidade da UFPR, Flavio Zanetti, dedicou 36 anos da vida acadêmica e pessoal a mudar esta história. Zanetti percebeu que no mundo do capital, era preciso tornar a Araucaria angustifolia viável economicamente para garantir a sobrevivência da espécie. A meta era tornar a araucária “mais rentável em pé do que deitada”.

Professor da UFPR, Flavio Zanetti, e um grupo de estudo liderado por ele, criou um enxerto capaz de produzir pinhões em apenas seis anos. Foto: Divulgação/Arquivo Assembleia Legislativa do Paraná

Foi assim que o professor, e o grupo de estudo liderado por ele, criou um enxerto capaz de produzir pinhões em apenas 6 anos. As araucárias na mata levam de 15 a 20 anos para iniciar a produção.

“A enxertia e formação de mudas enxertadas de araucária foram os maiores avanços que nós conseguimos no nosso grupo de pesquisa. Nós atingimos um grande objetivo: tornar a araucária altamente econômica na produção de pinhões. Hoje, portanto, é possível formar pomares de araucária para produção de pinhões e ao longo do tempo ganhar mais do que o plantio de soja e bem mais, duas a três vezes mais, produzindo um alimento rico, sem agrotóxico e preservando essa espécie de tanta importância”, comemora Zanetti.

Das florestas e bosques para a mesa

“Grande parte dos alimentos que temos na mesa, provém do manejo ambiental indígena, como a mandioca, o milho, a abóbora, o inhame, a pimenta e até o nosso pinhão”, diz o arqueólogo Sady, do MAE. O professor Ricardo Cid lembra o papel essencial do pinhão para as populações que habitavam o planalto sul. “É um alimento que tem a capacidade de ser preservado por longos períodos e a gente sabe que eles cozinhavam o pinhão, aferventavam e assavam o pinhão. Tinham uma série de preparos”.

Pinhão é utilizado com alimento desde a época dos povos originários do estado. Foto: Daniel Dan/Pixabay

O pinhão – a semente do fruto da araucária, a pinha – era parte importante da dieta dos povos indígenas desta região. “Por isso, para eles, a araucária era uma planta sagrada. É sagrada, pois se pensarmos em todo o planalto sul brasileiro – toda a área de planalto do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, montanhas em São Paulo e em Minas Gerais – onde há araucária, praticamente não há outra fruta no período de inverno. O pinhão era a garantia de vida para eles e consideravam a Araucaria angustifólia, o nosso pinheiro, uma planta sagrada”, revela o professor Zanetti.

Do ponto de vista nutricional, o pinhão é fonte de gorduras monoinsaturadas, de cálcio, de magnésio e de outros minerais e vitaminas. É uma importante fonte de energia, mas com menor quantidade de calorias do que o coco e as amêndoas, por exemplo. Por outro lado, tem mais fibras do que o gergelim, a castanha do Pará e a de caju, perdendo somente para a linhaça. “O alto teor de fibras vegetais aumenta a saciedade, diminui a absorção de colesterol no intestino, melhora o trânsito intestinal e favorece uma microbiota – ambiente constituído pelas nossas bactérias intestinais – mais saudável”, explica Regina Maria Vilela, professora do Departamento de Nutrição da UFPR.

 

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