As histórias infantis e seu poder de sensibilizar até os bebês

Tina Demarche

Era uma vez… uma moça que nasceu para contar histórias. Os contos viviam dentro dela, em cada cantinho, em cada dobrinha. Eram coloridos ou em preto e branco, alegres ou às vezes tristes, de fada ou de bruxa, de herói ou de pessoa normal, assim como você ou eu. Era só ela abrir a boca e pluft! uma história escapulia.

E assim, de história em história, de conto em conto, essa moça foi construindo também o enredo de sua própria vida. Aprendeu que existe história certa para cada grupo de pessoas, que as histórias contadas com afeto abrem o caminho para o coração e, principalmente, teve a certeza de que o que a deixaria mais feliz seria se profissionalizar nessa atividade. Há dez anos esse sonho se tornou realidade e hoje Fernanda Munhão atua profissionalmente como contadora de histórias. Nascida na capital de São Paulo, mora atualmente em Ourinhos, no interior do estado. Mestre em Literatura, é formada em Jornalismo, Letras e Pedagogia. E como a contação anda de braços dados com os livros, Fernanda também se tornou escritora de literatura para a infância. Ela gosta tanto de contar histórias que nem os bebês escapam. E garante que mesmo aqueles que ainda estão nas barrigas de suas mamães se sensibilizam com as narrações. Acredita? Pois, olha só tudo que ela tem pra nos contar:

TD – A partir de que idade se pode contar histórias a uma criança?
FM – Desde sempre! Desde o ventre! Desde que ela desperta para o mundo! As histórias devem estar presentes na vida da criança todo o tempo para que isso se torne um hábito prazeroso.

TD – Quando está no ventre, o bebê é sensibilizado com a contação pela mãe? Ou por qualquer pessoa?
FM – Existem dois processos diferentes. Quando a mãe lê ou conta uma história para si mesma, ela está utilizando alguns processos cognitivos para a decifração de palavras e dar sentido a elas. No caso de alguém ler ou contar a história para a mãe, as palavras acabam chegando ao bebê de forma mais direta, como uma melodia. Ao nascer, as histórias já farão parte da vida dessa criança e o melhor: a voz de quem lê será reconhecida, o que se torna mais significativo porque se criam laços de afeto.

TD – O que acontece com o emocional da criança quando ela ouve uma história?
FM – A criança aprende a lidar com as suas emoções, com diferentes percepções e sentimentos, contribuindo para a sua inteligência emocional. Ao observar uma criança, ela parece estar ouvindo uma história, brincando com todo tipo de coisa e balbuciando. No entanto, ela está utilizando o lúdico para compreender sua própria vida. E tende a se organizar a partir do que lhe é incentivado para construir os seus próprios caminhos.

TD – Que outros benefícios tem a contação para crianças bem pequenas?
FM – As histórias desenvolvem o imaginário e criam maior vínculo com os pais ou com as pessoas que estão contando. Também é possível ampliar o vocabulário, construir repertório cultural e desenvolver a escuta e a criatividade.

TD – As contações podem ser feitas por pais e também professores? Isso faz alguma diferença para a criança?
FM – Na verdade, pais e professores devem contar histórias para as crianças. Preferencialmente os pais, que são as principais referências de afeto e segurança. No entanto isso nem sempre acontece com frequência em casa e toda essa prática se transfere para a sala de aula. Por isso, é importante que a contação de histórias seja realizada pelos professores de forma prazerosa e não somente para fins pedagógicos: o estímulo da contação de histórias, o prazer pelo prazer. Isso transforma pessoas, não é mero entretenimento.

TD – Existe um método específico para contar histórias para as crianças? Ao contar, o que se deve levar em conta?
FM – Não existe um método único, pelo contrário. Cada contador de histórias constrói a sua identidade e se apropria dos recursos em que acredita. O importante é que ele acredite naquilo que está sendo contado e recheie a história de afeto. Não há regras, apenas dicas.

TD – O que se deve observar nas reações das crianças quando se conta uma história para elas?
FM – Se aquelas histórias estão fazendo sentido, se elas estão gostando. E antes mesmo das histórias, é preciso observar o comportamento para atrelar a história àquele sentimento. Fazer com que a história converse com o seu dia para que ela tenha sentido. Muitas vezes a criança não quer uma história empolgante ou agitada, ela simplesmente quer ouvir uma história e pensar sobre ela. E em alguns casos ela também tem o direito de não querer ouvir, é preciso respeitar.

TD – O que exatamente se pode considerar contação de histórias para crianças? As cantigas, tangolomangos, trava-línguas, etc, entram nessa categoria quando a criança é bem pequena?
FM – Quando contamos histórias para crianças menores, temos que levar em consideração o tamanho dessas histórias. As crianças precisam ter o hábito de ouvir histórias e nem sempre estão preparadas para isso. Assim, devemos buscar histórias mais curtas, com repetições de palavras, músicas no meio e suavidade na voz. As cantigas, os tangolomangos, trava-línguas e poemas também são narrativas e se encaixam bem ao gosto das crianças menores: têm ritmo, são curtas e chamam a atenção. Além, é claro, de oferecer um repertório cultural riquíssimo.

TD – Como devem ser as histórias contadas para as crianças? Quem vai contar deve se preocupar com que tipo de enredo?
FM – Podemos contar todo tipo de histórias para as crianças, mas precisamos identificar a sua maturidade, verificar se ela está preparada para ouvir. Por meio da literatura para a infância ou de uma boa história contada de boca, é possível levar qualquer tipo de enredo, inclusive aqueles mais polêmicos: abuso, violência, separação, abandono, entre outras temáticas. A diferença é que ao utilizar o lúdico, tratamos o tema com mais leveza e de forma poética. E isso faz muito sentido à criança que pode se abrir e falar sobre seus próprios conflitos. E, nesse processo, é interessante ouvir o que elas têm a dizer. Não é possível despertar um sentimento e depois abafá-lo. A dica é ter sensibilidade.

TD – Nessa fase é importante que se use objetos como recursos extras?
FM – O uso de recursos permite que os bebês visualizem as histórias de forma mais completa. Eles ainda não possuem tanto repertório e a atenção deles ainda é muito pequena, de acordo com o seu desenvolvimento. Com objetos, a criança tende a prestar mais atenção e consegue fazer relação com a sua vivência e com o que está sendo apresentado. Por isso, os objetos são bem importantes nos anos iniciais.

TD – A contação nessa fase da infância propicia que se tornem adultos leitores?
FM – Nem sempre. Acredito que se tornar leitor depende de cada pessoa, de cada situação. Por outro lado, se houver estímulos de leitura e da contação de histórias nessa fase da infância, há uma grande chance. O que não pode acontecer é não estimular, não incentivar… Monteiro Lobato já dizia: “Livro é sobremesa, tem que ser posto debaixo do nariz do leitor.” Não se pode gostar de algo que não se conhece. E para valorizar a leitura, é preciso que alguém já tenha valorizado por meio do exemplo.

TD – Para eles é importante contar a mesma história várias vezes? Por que?
FM – Quando uma criança pede para recontar uma história, aquela história está trabalhando algum processo ainda em construção dentro dela. Ela está aprendendo a lidar com seus próprios conflitos, a lidar com a vida. No caso dos bebês, essa repetição é ainda mais importante. Eles estão buscando novos repertórios e quando encontram, se sentem confortáveis e dão preferência pelo que é familiar. Assim eles podem participar da história de forma mais afetiva, podem antecipar ações, brincar com as falas dos personagens e se sentir próximos da história como com um brinquedo.

TD – O que chamou você para a contação de histórias? Como foi o começo de seu caminho na contação?
FM – Fui professora do infantil até a universidade durante 17 anos e sempre amei contar histórias em sala de aula. Quando lecionava Literatura no ensino médio, utilizava histórias para aguçar a leitura dos clássicos. Foi aí que eu percebi que as histórias fascinam inclusive adolescentes. As histórias servem para qualquer faixa etária, só é preciso levar a história certa para aquele determinado grupo de pessoas. Depois disso, participei do Simpósio Internacional de Contadores do Rio de Janeiro, organizado pela Benita Prieto, e me apaixonei. E era exatamente aquilo que eu queria fazer pelo resto da vida. Na verdade, as histórias já faziam parte de mim, fazem parte de todos nós. Só foi profissionalizar e ter a consciência do trabalho.

TD – O que mais gratifica você na contação?
FM – Sinto que sou apenas um instrumento para a contação de histórias e quando consigo fazer com que elas tenham sentido para as pessoas, isso é muito significativo para mim. Gosto de saber que aquela história pode mudar a vida de alguém ou simplesmente fazer com que a pessoa tenha um dia mais agradável ou reflexivo. Sou muito grata por fazer o que amo. As histórias me transformaram e eu sinto vontade de repassar isso para muita gente. Não é à toa que as histórias são sinônimo de afeto.

TD – Além de contar histórias, você também é autora de livros infantis. Na sua opinião, uma coisa está comumente ligada à outra?
FM – São processos diferentes, mas que estão intimamente relacionados. A contação de histórias valoriza a oralidade, a história contada de boca, de geração para geração. As histórias autorais publicadas em livros valorizam a leitura e o objeto livro em si, de modo a contribuir para a formação do leitor. No entanto, quando conto histórias, posso mostrar o livro e dizer que a história ouvida também pode ser lida. Tudo se trata de um trabalho bem feito, de incentivo. Se eu tenho paixão pelo que faço, seja por meio das histórias contadas ou numa leitura, de alguma forma contamino alguém a partir das palavras e, assim, elas podem chegar ao coração.

****Acompanhe o trabalho de Fernanda Munhão nas redes sociais
Instagram: @fernandamunhaohistorias
YouTube: Fernanda Munhão

As histórias simples e curtinhas como os tangolomangos, que são cantigas populares ou parlendas com estrutura repetitiva e enumerativo decrescente, atraem a atenção de crianças bem pequenas

QUEM INDICA O QUÊ

Maria Ângela de Novaes Marques é mestre em Direito das Relações Sociais pela UFPR, com formação em Mediação de Leitura pela Fundação Cultural de Curitiba – Literatura. É também membro consultora da Comissão de Assuntos Culturais da OAB-PR, integra o Grupo de Trabalho Direito e Literatura e coordena a oficina Ler com Arte no Museu Alfredo Andersen, em Curitiba (atividade paralisada temporariamente em função da pandemia).
“Livro de muita influência nas leituras que tenho feito desde a infância é O menino do dedo verde (Tistu), clássico da literatura infantojuvenil desde quando lançado em 1957 por Maurice Druon, com tradução para dezenas de línguas. No Brasil, sempre publicado pela editora José Olímpio, já ultrapassa a 120.ª edição, com as simples ilustrações que acompanham gerações de leitores.

Tistu é fábula encantadora para todas as idades e segue sendo livro relido por mim e a maioria de seus leitores, por oferecer um repensar sociológico e ético da vida moderna, sobretudo por ser estruturado com profunda sensibilidade e empatia. Ler O menino do dedo verde é resgatar a criança interior e apontar ao adulto haver momentos em que necessitará rever valores e reorganizar prioridades em sua existência.

Destaco uma frase singela dita pelo personagem principal, nosso menino Tistu, que é comovente: ‘Descobri uma coisa maravilhosa! As flores não deixam o mal ir adiante.’”

EU INDICO

O Túnel, de Anthony Browne. Com cerca de 50 títulos, esse britânico é autor e ilustrador de livros infantis. Ganhou em 2000 o prêmio Hans Christian Andersen, que é o mais importante reconhecimento da literatura infantojuvenil no mundo.

Nesse livro, em que as narrativas visual e verbal contribuem para um resultado surpreendente, ele me fez lembrar de muitos momentos de minha vida, em que era preciso decidir, encarar o desconhecido, vencer o medo. A passagem pelo túnel leva duas crianças – e a nós mesmos, o tempo todo – às mudanças que nos amadurecem e fortalecem.

Cruzar o túnel significa não poder voltar atrás em nossa evolução. Significa deixar quem éramos para nos tornarmos maiores e melhores.

 


Tina Demarche é jornalista, apaixonada por literatura infantil e metida a escritora. Também gosta de crianças, animais e plantas. Sonha com um mundo sem fronteiras, como o mundo da imaginação. E-mail de contato: [email protected]

 


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