Em que época vivemos?

Do império romano, passando pelos anos de 1940 aos dias atuais, em que fase da evolução você está?

Por Kris Rothstein

Eu demorei – e, às vezes, você demora mais do que deseja, porém, quando decide, o faz no momento oportuno. E creio que este seja o momento oportuno para iniciar minha coluna aqui, no Curitiba de Graça. Ela chama-se Cultive-se. Esse nome porque, em meio a uma pandemia, descobri que, apesar de estar mais perto da morte do que da vida (já que apenas parcos 13 meses me separam do meio século de trajetória, do qual espero duas coisas: estar viva [os deuses da natureza e do Universo permitam-me cruzar os 50, 80, e quem sabe dobrar os cinquentinha] e ser mais sábia [creio que isso só depende apenas de mim – ufa!]), que eu estava longe de ser e o que eu gostaria. Já vou deixar bem evidente: agradeço cada centímetro da vida que conquistei e levo. Dito isso, quero mais é deixar aflorar aquela garotinha topetuda e curiosa de outrora. Assim, nasce Cultive-se, um autoconselho que divido e ofereço aos amigos leitores como a uma xícara de café. Aceita?

Há cerca de duas semanas me debrucei a entender a polêmica em cima do lançamento da plataforma Netflix: “Rebecca – A Mulher Inesquecível”. Há muitas questões em torno do filme. A mais curiosa é que é um plágio – vejam só – de uma autora brasileira, Carolina Nabuco, filha do abolicionista Joaquim Nabuco [para saber mais dessa história segue AQUI a coluna de Marden Machado para a CBN Curitiba, e também o canal “Ler Antes de Morrer”, da jornalista Isabella Lubrano, AQUI].

Grande parte dos críticos e influencers da área criticam a nova versão (confira alguns aqui, aqui e aqui). Mas, há também quem ofereça um novo olhar, como o colunista aqui do Curitiba de Graça, Flavio Jayme – confira neste link.

Mas, o que me chamou a atenção foi outro tópico [spoiller]. Quando uma obra é refilmada, é comum ter algumas mudanças. Algumas bem semelhantes e igualmente boas, como “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” ou “Vanilla Sky/Abra os Olhos” (que inclusive tem Penélope Cruz fazendo o mesmo papel nos dois filmes, Sofia). Algumas bem distintas do original – como “Fama”, na primeira versão dirigida por Alan Parker, que nos deixou em julho passado. Contudo, no caso de “Rebecca”, por que diabos o diretor não modificou o final e deu luz ao feminicídio que ocorre no filme? Sim, minhas caras e meus caros, trata-se de um feminicídio, palavra que não existia na época do original (o premiado longa, que levou o Oscar de melhor filme) do cineasta imortalizado por seus suspenses, Alfred Hitchcock, mas, sim, existe hoje e cada mulher que morre vítima de seus companheiros escreve um legado sobre a importância de falar sobre esse assunto.

O diretor, roteirista e, quem sabe, a própria produtora Netflix, optaram seguir o caminho mais confortável. Aliás, escolheram, vejam só, aumentar a violência à vítima, Rebecca. Se na novela, derivada da obra brasileira, Alice (nome da protagonista do livro A Sucessora, de Carolina Nabuco) morria de doença, no filme de 1940 ela morria de forma acidental – há controvérsias mas, mesmo assim, pode ser considerada dessa forma (para assistir o filme pesquise no YouTube por “Rebecca 1940”). No entanto, na versão atual, a mulher inesquecível morre porque seu marido, alçado a vítima, a mata e confessa para sua esposa do momento. A jovem, ao invés de ser uma heroína dos tempos modernos – tão necessária em uma época em que uma mulher morre a cada sete horas vítima de feminicídio (confira entrevista da ex-secretária Nacional do Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, Aparecida Gonçalves, dada à jornalista Thea Tavares, do coletivo Movimento Gota D´Água, neste link e neste outro), dá vida a uma heroína tosca e romanticazinha que prefere simplesmente se sentir feliz porque tem um homem para chamar de seu. Sim, ele diz que “odeia” Rebecca e que ama a nova Sra. Winter (a pobre é tão insignificante que nem tem nome, ou seja, só existe porque ele, seu marido, lhe dá um nome). O machismo escorre na tela como escorre nos tribunais na vida real.

No excelente podcast “Praia dos Ossos” (ouça AQUI) vemos um trabalho primoroso jornalístico a respeito do crime que mobilizou o país (eu era muito pequena quando ocorreu, mas imagino que tenha sido uma espécie de Lava Jato dos anos de 1970, considerando a proporção e cobertura jornalística que tomou), em que um misto de opinião pública (encampado pela imprensa) e manobras jurídicas transformaram a vítima, Ângela Diniz, em culpada de ser morta pelo namorado Doca Street.

O comportamento e reputação de uma mulher nos anos de 1940, início do século 20, nos anos de 1970 e, ainda hoje, no século 21, é mais importante do que o crime a que ela é vítima.

A jovem Mariana Ferrer (que teve audiência em setembro sobre caso de acusação de violência sexual, que teria ocorrido em 2018) teve a reputação atacada pelo advogado do acusado. Como alguém sendo ouvida no tribunal não foi protegida pela lei ali representada? O máximo que ofereceram a ela foi um copo de água. O tema e o vídeo do que ocorreu no tribunal virtual veio à tona na reportagem do The Intercept Brasil. Nas imagens mostradas no vídeo, Mariana é a única mulher. São os homens, novamente, como há séculos, que se sentem superiores para julgar o comportamento de uma mulher. Já não está na hora de mudar isso?

Quando você pensa que a sociedade avançou tanto, que há tanta tecnologia possível, inclusive, para pesquisar se existe vida inteligente em outros planetas, vemos que falta inteligência por aqui. Mas, sobram misoginia e machismo.

Um famoso ditado, amplamente usado, aliás, para falar de ética, teve origem no machismo. Trata-se de o: “A mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase representou o pensamento de Júlio César, ditador absoluto romano, 60, 63 anos antes de Cristo. Conta-se que a mulher do imperador, Poméia Sula, havia promovido um festival em homenagem à “Bona Dea”, uma deusa, apenas para mulheres. Eis que Publius Clodius, apaixonado pela jovem, se fantasiou de tocadora de lira para entrar na festa. Contudo, foi descoberto pela mãe de César. O caso foi parar no tribunal e, obvio, Publius negou o fato.

Apesar disso, César se separou de Pompéia e a Publius nada ocorreu. Ou seja, mesmo não ocorrendo o “crime”, a honra imaculada de Pompéia já havia sido destruída.

Nos dias atuais, século 21, parece que o tal ditado foi alçado a lei. Não é só a mulher de César que precisa parecer honesta, toda mulher precisa parecer assim aos olhos sexista e machista de uma sociedade vil e violenta.

Cada um é um ser do seu tempo e a cultura, como reflexo de uma sociedade, espelha isso, tanto nas telas quanto nas ruas vemos os mesmos disparates. Porém, cabe à arte romper o hímen complacente que nos fragiliza como seres humano pensante. É preciso ser melhor.



Kris Rothstein é jornalista, idealizadora do Curitiba de Graça, militante do coletivo Movimento Gota D´Água, feminista e uma defensora dos direitos humanos.

8 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns, Kris,por rememorar tantos casos históricos de violências contra a mulher a que estivemos submetidas.
    Nossas lutas seculares contra homens violentos e embutrecidos tem de ser exercidas de modo permanente .Obrigada, pela chama de indignação que você ateia em nós.
    Resistiremos.

  2. Parece que caminhamos, caminhamos e pouco saímos do lugar. Mas como diz a Cida, não podemos nos dar ao luxo de parar de lutar, nem por um minuto. Parabéns pelo texto, querida Kris. Vida longa à Cultive-se.

  3. Interessante o seu texto, muito bem escrito e referendado.
    Também gostei do modo como você se apropria de fatos históricos para os articular, à sua maneira, na argumentação central do texto. Aproveito aqui para pinçar um excerto da sua argumentação, e dizer que para além dela a misoginia e o machismo, existe ainda o patriarcado. Causa-me profunda consternação toda vez que me deparo com matérias como os de seu artigo, e noto então que não está havendo adesão dos homens nesses espaços de debates da sociedade. Reparo ainda que a maior parte deles ainda não se deu conta de que o que chamamos de patriarcado, não constitui um elogio à sua virilidade masculina. Ao contrário, o patriarcado constitui uma das principais causas daquilo que Wilhelm Reich chamou de chaga emocional. Penso eu que é imprescindível que esse homem atente-se mais ao que se passa à sua volta, e mais do que nunca busque discutir, dialogar, para que mais adiante isso não se transforme em motivo de frustração. Do contrário, esse homem deverá municiar com a própria felicidade o estado bélico em que sempre viveu, sem paz consigo mesmo, e nem com mundo, e mesmo ainda com aquilo que vive à sua volta. É, pois, indispensável que esse homem comece a refletir um outro projeto existencial para o homem do futuro, pois que este – o do presente – não deverá mais existir!…
    Parabéns pela matéria….

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