Cultura da Terra: Famílias de Curitiba recebem doação de 9 toneladas de alimentos do MST e parceiros

Sete toneladas vieram de famílias camponesas do acampamento Maila Sabrina, de Ortigueira. Outras 13 cidades do estado realizam mobilizações em memória ao Massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido no Pará, há 25 anos

Equipe de Comunicação MST – Paraná

Cerca de 340 famílias da Vila Jardim Veneza, do Tatuquara, sul de Curitiba, receberam a doação de 9 toneladas de alimentos na manhã desta sexta-feira (16/04). A maioria dos moradores da ocupação está entre os 116,8 milhões de brasileiros que enfrentam algum grau de insegurança alimentar, conforme a pesquisa divulgada no início de abril pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Mandioca, arroz, feijão e frutas estavam entre as 7 toneladas de alimentos frescos que vieram das lavouras, pomares e hortas de famílias camponesas da comunidade Maila Sabrina, localizada em Ortigueira, norte do estado. O acampamento tem 18 anos e é formado por cerca de 400 famílias que também lutam pelo direito de permanecer na terra e continuar a produzir alimentos.

Também participaram da ação o Centro de Assistência Social Divina Misericórdia do Sabará (CASDM), com a doação de 101 cestas, e militantes do Partido dos Trabalhadores de Curitiba e do gabinete da deputada federal Gleisi Hoffmann, que doaram 1.500 quilos de alimentos não perecíveis.

A ação solidária fez parte das mobilizações do Abril Vermelho, que ocorre em todo o Brasil para marcar os 25 anos do Massacre de Eldorado dos Carajás, quando a Polícia Militar do estado do Pará assassinou 21 trabalhadores rurais Sem Terra e mutilou outros 69, no dia 17 de abril de 1996. A repercussão nacional e internacional do crime levou à definição da data como Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.

Além da ação em Curitiba, pelo menos outras 14 cidades do estado estão recebendo doações de famílias do MST, em solidariedade a quem sofre com a falta de comida na mesa neste período em que a pandemia do coronavírus atinge números cada dia mais alarmantes. As ações também cobram o direito à vacinação já para toda a população, o auxílio emergencial de R$ 600 para as pessoas sem renda e o impeachment do presidente Bolsonaro, por agir de forma desastrosa e negligente diante da pior crise sanitária da história do país.

Roberto Baggio, integrante da direção estadual do MST e um dos organizadores da ação em Curitiba, explica que as mobilizações solidárias ocorrem diante do sofrimento das famílias urbanas com falta de alimento, trabalho, auxílio emergencial e vacina. “Essa solidariedade é possível repartindo o que se produz nas áreas da reforma agrária, nas terras conquistadas […]. Nossa esperança é que todo este alimento aumente a resistência, a luta pra viver, e gere a esperança pra gente construir um Brasil mais justo, mais humano, mais solidário nos próximos anos”.

A Irmã Anete Giordani, coordenadora do CASDM, participou da benção dos alimentos, realizada junto com pastores evangélicos, por volta das 9h. A religiosa enfatizou a urgência da continuidade das doações, para amparar quem sofre com a fome neste momento de pandemia: “Nós realmente precisamos sempre mais estar unidos em coletivos para ter conquistas. Individualmente a gente pode gritar, mas nós não somos ouvidos. Nós somos ouvidos como povo […]. Precisamos mostrar mais pro mundo que na base da sociedade as pessoas sobrevivem na partilha, é isso que vai fazer a diferença na vida de todas as pessoas”.

Durante a benção dos alimentos, uma carta enviada pela comunidade Maila Sabrina foi lida para os moradores, que também receberam uma cópia impressa da mensagem. “Queremos trazer por meio desta carta nossos sentimentos de companheirismo, solidariedade e partilha, e afirmar que nós somos um povo unido, um povo resistente, que luta pelos direitos de sua classe e que tem a missão de contribuir com aqueles que sofrem com os descasos deste governo genocida”, dizia um trecho da mensagem. Leia a íntegra da carta logo abaixo.

O vereador de Curitiba Renato Freitas (PT) também acompanhou a entrega dos alimentos.

Acesso à moradia

A Vila Jardim Veneza existe desde 12 de dezembro de 2020, localizada em um terreno abandonado na zona sul da capital. Os relatos de falta de dinheiro para pagar aluguel estão entre os principais motivos que levaram famílias a optarem pela ocupação. Uma ordem de reintegração de posse chegou a ser emitida, mas está suspensa desde janeiro.

Fernanda Aparecida tem 34 anos e vive com sua filha, de dois, na ocupação, e diz que toda doação e ajuda do MST é importante. “A situação está muito complicada na pandemia”, conta. Por ser mãe solteira, Fernanda recebe o auxílio emergencial de R$ 375, mas, segundo ela, não é suficiente. “Não supre todas as necessidades. Nossa luta é um lugar para ficar e precisamos do apoio de todo mundo. Não estamos conseguindo emprego”.

Todas as quartas-feiras, refeições produzidas pelo coletivo Marmitas da Terra são distribuídas gratuitamente para os moradores da comunidade. A ação é coordenada pelo MST, em conjunto com mais de 100 militantes voluntários. A maior parte dos ingredientes utilizados na produção da comida vêm de áreas da Reforma Agrária do Paraná.

Os alimentos doados nesta sexta vão contribuir para o início de uma cozinha comunitária, para atender as próprias famílias da ocupação e as pessoas em situação de rua das proximidades.

Solidariedade permanente

Desde abril de 2020, mais de 560 toneladas de alimentos foram partilhadas em todo o Paraná com a participação de milhares de agricultores e agricultoras da Reforma Agrária. Parte destas famílias Sem Terra ainda luta para garantir o direito de permanecerem nas áreas onde moram, produzem alimentos e garantem condições dignas de vida. Mais de 52 mil refeições também já foram partilhadas em Curitiba pela ação Marmitas da Terra.

Cada uma das doações é organizada em diálogo com igrejas, setores do poder público municipal, movimentos sociais e entidades urbanas. Todos os protocolos de prevenção à Covid-19 estão sendo seguidos para a realização das doações.

Carta da comunidade Maila Sabrina à comunidade Jardim Veneza

“Prezados irmãos e prezadas irmãs da comunidade Jardim Veneza, bairro Tatuquara, Curitiba/PR

Nós da Comunidade Maila Sabrina, composta por 370 famílias, situadas no município de Ortigueira, região norte do Paraná, trabalhamos na terra onde vivemos há cerca de 18 anos. Plantamos uma vasta diversidade de alimentos, entre eles cereais, grãos e hortaliças. Somos um povo roceiro, de sonhos e lutas em comum. Toda a nossa comunidade foi construída pelas nossas mãos, de trabalhadores e trabalhadoras. Organizados por meio de mutirões, erguemos os espaços de moradia, saúde e educação. Onde havia um grande latifúndio improdutivo mantido por uma única família, hoje vivem camponeses que sobrevivem da terra.

Atualmente, vivemos um grande colapso na saúde pública causado pela pandemia da Covid-19. Diante deste triste cenário, a classe trabalhadora tem sofrido uma dura realidade, de um governo que não é comprometido com a vida e com as necessidades do povo trabalhador. A falta de vacina e o descompromisso das autoridades com o povo promovem o aumento da insegurança das famílias dos trabalhadores(as) em todas as dimensões da vida. A luta pela sobrevivência é diária. Neste sentido, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) assume o compromisso de defesa pela vida, do direito ao acesso à alimentação saudável, saúde, moradia e condições dignas de sobrevivência. Para ampliar esta discussão, o movimento MST lançou o Plano Nacional “Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis”. É uma iniciativa que tem a intenção de plantar 100 milhões de árvores em nossas áreas de Reforma Agrária, até 2029. Já iniciamos os plantios em nossa comunidade também.

Queremos trazer por meio desta carta nossos sentimentos de companheirismo, solidariedade e partilha, e afirmar que nós somos um povo unido, um povo resistente, que luta pelos direitos de sua classe e que tem a missão de contribuir com aqueles que sofrem com os descasos deste governo genocida.

Para nós, povo da comunidade Maila Sabrina e do MST, o ato da partilha dos alimentos é um momento místico, pois compartilhamos os frutos de nossa terra abençoada, cultivada pelas mãos de trabalhadores e trabalhadoras, que se sentem felizes ao doar os alimentos que também estão presentes em nossas mesas.

Somos parte da mesma consciência de luta, somos um só povo que caminha pelo mesmo horizonte em busca de nossos sonhos. Com organização e coletividade, as lutas vão se concretizar e despertará um novo ciclo de vitória e renovação. Por isso não desanimem, sigam avante. Desejamos que cada uma das 348 famílias da comunidade Nova Veneza receba os frutos de nossa terra e que estes tragam força e esperança para cada um de vocês. Gostaríamos também de convidar vocês a conhecerem a nossa comunidade, e logo que vencermos a pandemia iremos visitar vocês em Curitiba.

Abraços fraternos!

Lutar, Construir Reforma Agrária Popular!
Coordenação e direção do Acampamento Maila Sabrina.
14 de Abril de 2021.
Acampamento Maila Sabrina; Bairro: Formosa, Ortigueira, PR”

 


O Movimento Sem Terra está organizado em 24 estados nas cinco regiões do país. No total, são cerca de 350 mil famílias que conquistaram a terra por meio da luta e da organização dos trabalhadores rurais. Mesmo depois de assentadas, estas famílias permanecem organizadas no MST, pois a conquista da terra é apenas o primeiro passo para a realização da Reforma Agrária

 


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